RKRodrigo Kluska

Carta da Semana / Carta #1

A coragem de esperar de novo

A esperança não dói. O que dói mesmo é parar de se permitir esperar.

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A gente aprendeu a chamar de maturidade o medo de esperar.

Tem alguma coisa que você parou de esperar. Pra muita gente, ela está dobrada no fundo da gaveta, em forma de camiseta amarela. Na última Copa, você não vestiu. Nesta, ainda nem sabe se vai vestir.

Tão logo a convocação saiu, o país inteiro voltou a discutir quem entra e quem sai do time. Eu observo gente há mais de vinte anos, e o que vejo nessa discussão não é tática. São pessoas pedindo, do único jeito que sobrou, pra fazer parte de novo.

Porque as últimas vezes doeram. E doer ensinou a não esperar mais. A gente chamou isso de realidade, mas era só medo de querer outra vez e perder de novo. Então deixa eu te dizer uma coisa, com cuidado: a sua descrença não é fraqueza. É a conta de tudo o que você esperou sem que ninguém cuidasse do que vinha depois.

E, ainda assim: a esperança não dói. O que dói mesmo é parar de se permitir esperar.

Pensa na tinta verde e amarela ainda fresca na viela. No sofá da sala que vira arquibancada. Em oitenta mil corpos prendendo o ar no mesmo segundo. É sempre a mesma coragem pequena: a de querer gritar junto.

Você não precisa virar torcedor se não quiser. Só precisa decidir se ainda lhe sobra um fio de coragem pra deixar a alegria interromper a rotina. Ouse esperar: no estádio, na Copa, na sua própria vida. Porque inteireza também é não desistir da alegria antes de ela chegar.

Paulo Freire, na Pedagogia da Esperança, separava dois verbos: esperar e esperançar. Esperar é ficar à espera. Esperançar é se levantar e ir. A camiseta no fundo da gaveta ainda é do verbo esperar; vestir de novo é do verbo esperançar.

Que nesta semana você esperance.

Até a próxima, Rodrigo

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