Carta da Semana / Carta #3
O dia que nunca chega
A gente deu um nome bonito pra ele: "quando der". Esta carta é sobre o que acontece quando a gente para de esperar por esse dia.
Comece a leituraTem um dia que nunca chega.
O dia em que vai sobrar.
Sobrar tempo. Sobrar calma. Sobrar dinheiro, fôlego, espaço na agenda. Sobrar vida pra aproveitar.
Você conhece esse dia. Eu também. A gente até deu um nome carinhoso pra ele: “quando der”.
Quando der, eu descanso. Quando der, eu ligo pra quem amo. Quando der, eu cuido de mim. Quando der, eu volto a sonhar.
Eu conheço esse dia por dentro. Passei boa parte da vida adulta marcando encontro com ele. Reunião que invadia a noite, domingo que virava véspera de segunda, férias que eu mesmo adiava com a desculpa mais aceita do mundo: depois. E o curioso é que ninguém me cobrava esse adiamento. Fui eu que aprendi a cobrar de mim.
E talvez você também tenha aprendido.
Porque quase todo mundo aprendeu. A gente cresce ouvindo que a vida de verdade começa quando alguma coisa terminar: a faculdade, a reforma, o projeto, a crise, o ano. E vai empurrando pra esse dia imaginário tudo o que não cabe na pressa de hoje. O café sem hora pra acabar. A conversa comprida. O telefonema que não é pra resolver nada, é só pra ouvir a voz.
Enquanto isso, o sol passa. A maré muda. O café esfria na mesa, devagar, sem ninguém notar.
Foi desse lugar que nasceu esse poema:
QUANDO DER
Tem um dia que nunca chega:
o dia em que vai sobrar.
Sobrar tempo, sobrar calma,
sobrar espaço pra sonhar...
Nomeamos esse dia,
chamamos de “quando der”.
Mas o dia adormecia,
e a vida se perdia...
Quando der, eu descanso.
Quando der, eu recomeço.
Quando der, eu acredito...
Numa hora já tardia.
Enquanto isso, o dia passa,
a maré muda, a onda arrasta,
o café esfria devagar...
Sem licença, sem esperar.
O sol se põe, a vida avisa
e demoramos pra escutar:
Ela não mora no depois.
Não mora no talvez,
nem na próxima condição.
A vida mora no agora.
Nesse instante imperfeito,
nesse abraço incompleto,
nesse agora sem arrumação.
E então eu me decido.
Solto o “quando der”,
desamarro a espera,
vira hora de viver:
viver agora,
viver inteiro,
viver... e amanhecer!
Eu queria me demorar num verso só, se você me permite.
“A vida mora no agora.”
Cinco palavras. E, talvez, a coisa mais difícil de aceitar que existe. Porque a gente trata o dia comum como corredor. Como sala de espera. Como aquilo que se atravessa pra chegar ao que interessa: o fim de semana, a viagem, a próxima conquista. A gente vive como quem espera ser chamado pelo alto-falante.
Só que ninguém vai chamar.
Não existe alto-falante. Não existe senha. Não existe o dia em que a vida vai te avisar: pronto, agora pode começar.
Ela não mora no depois. Não mora no talvez, nem na próxima condição. A vida não estava esperando sobrar: estava aqui o tempo todo, no dia comum, no instante imperfeito.
No café que você toma correndo e podia tomar sentado. Na pergunta do seu filho que você responde pela metade. No abraço incompleto, dado com pressa em quem você ama e olha pouco. Na sua própria respiração, que segue fiel, mesmo sem nunca ter recebido um agradecimento.
Não estou te propondo largar tudo. Nem te vendendo a fantasia de que dá pra viver cada dia como se fosse o último, porque não dá, e tudo bem.
Estou te propondo algo menor e, talvez por isso, possível: resgatar um pedaço de hoje. Um só. Um telefonema feito hoje, não “quando der”. Um café tomado inteiro. Dez minutos sem tela, sem meta, sem culpa, só você dentro da sua própria vida.
Porque o “quando der” tem um custo que a gente só percebe tarde: ele cobra em dias. E dia, diferente de quase tudo na vida, não tem reposição.
A vida não mora no depois. Mora aqui, neste agora sem arrumação.
Que nesta semana você more aqui.
Nem que seja por dez minutos.
Até a próxima,
Rodrigo