RKRodrigo Kluska

Carta da Semana / Carta #16

Quantas versões de você uma vida aguenta?

INTEIREZA: uma sala pode pedir outra linguagem, mas não deve pedir outra alma.\*

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Capa publicada de Quantas versões de você uma vida aguenta?, Carta #16

Deixa eu te fazer uma pergunta. Não precisa responder depressa. Só não passa por ela sem se escutar:

quantas versões de você existem por aí?

Tem a que entra numa reunião e mede cada palavra. Tem a que chega em casa cansada, mas diz que está tudo bem. Tem a que engole uma opinião pra não criar distância. Tem também a que levanta a voz pra ninguém perceber que está com medo. E tem a que fica menor diante de algumas pessoas e mais dura diante de outras.

Você sabe do que eu estou falando.

A gente aprende cedo a ler a sala. Ajusta o tom, escolhe as palavras, muda o jeito de chegar. E isso não é falsidade. É maturidade.

Você não fala com um filho como fala numa reunião. Não chega perto de alguém doente do mesmo jeito que chega numa negociação. Não oferece intimidade a todo mundo. Nem deveria.

Adaptar-se faz parte de viver.

Mas algumas salas cobram um preço alto demais pra deixar a gente entrar.

Primeiro, pedem uma opinião. Depois, um limite.

Mais adiante, a nossa delicadeza, a nossa coragem, o jeito como tratamos alguém quando ninguém importante está olhando.

E a gente vai pagando. Um pedaço de cada vez. Até olhar pras versões que construiu e já não saber qual delas ainda consegue chamar de casa.

A pergunta não é se somos iguais em todas as salas. Ninguém é. E nem deveria ser.

A pergunta é: o que continua sendo verdade em nós quando a sala muda?

O papel pode mudar. A linguagem pode mudar. A responsabilidade pode mudar. Até uma decisão pode mudar quando a vida nos ensina alguma coisa nova.

Mas existe uma linha mais funda que precisa continuar inteira.

O respeito que não depende da utilidade do outro. A humildade que não desaparece quando chega o poder. O cuidado que não existe apenas diante de plateia. A capacidade de enxergar uma pessoa mesmo quando ela ocupa, aos olhos do mundo, um lugar pequeno.

Uma sala pode pedir outra linguagem, mas não deve pedir outra alma.

E era essa continuidade que eu vivia tentando nomear.

Não perfeição. Não uma vida sem contradições. Não uma régua pra medir a dignidade de ninguém.

Mas a capacidade de continuar sendo uma pessoa só enquanto atravessamos ambientes, pressões, relações, escolhas e tempo.

De mudar sem se abandonar.

Quando eu tinha ainda apenas um conceito na cabeça, pensei no dicionário. Integridade representaria, além de ser correto, estar alinhado entre o que se pensa, se fala e se faz.

Mas eu sabia que não era só isso. Como gosto de pensar em todas as nuances possíveis de um tema, fui procurar em outras línguas palavras que me ajudassem a dizer o que eu ainda não conseguia nomear. Foi no inglês que encontrei uma distinção que me fez pensar no que a palavra integridade sozinha não conseguia dizer.

Integrity, de fato, sustenta no gesto aquilo que se afirma na palavra.

Mas a integridade pode ser fria.

Uma pessoa pode ser coerente com a própria dureza. Pode cumprir tudo o que prometeu e ainda fazer o outro se sentir um número. Pode dizer sempre a verdade e usá-la como pedra. Pode entregar, vencer, crescer e não perceber quem foi ficando pequeno ao seu lado.

Percebi então que eu não falava só de integridade. Faltava alguma coisa. Era whole-heartedness.

Integridade é coerência. Já whole-heartedness é coerência com calor.

É a mesma coisa, mas com corpo e alma. É não deixar o coração do lado de fora justamente quando a competência, a pressa ou o poder dizem que ele atrapalha. É se interessar de verdade pela experiência interior do outro, não apenas pelo pedaço dele que cabe no relatório, na função ou na expectativa que criamos.

Integridade pergunta se a nossa palavra permaneceu inteira.

Whole-heartedness pergunta se o nosso coração estava presente enquanto a cumpríamos.

Não amolece a verdade. Coloca cuidado no jeito como ela chega.

Não nos obriga a concordar com todo mundo. Faz com que a gente enxergue a pessoa antes de decidir o que fará com aquilo que viu.

E então chamei de Inteireza. Porque não é só coerência entre pensamentos, sentimentos e ações. É também se manter coerente em todos os lugares, com todas as pessoas e em todas as relações.

E, se numa relação dependemos do outro e já estamos inteiros, então não podemos nos “integrar”, porque isso nos diminuiria individualmente. Temos de nos permitir somar nossas inteirezas.

Porque ser inteiro não é centrar-se em si. É também permitir que o outro continue inteiro ao nosso lado.

E isso muda o resultado de tudo.

Não estou falando só de meta, trabalho ou carreira. Resultado existe numa equipe e numa discussão em casa. Num atendimento e numa amizade. Num casamento que parece bonito por fora e no modo como duas pessoas se tratam quando a porta fecha. Tudo deixa seu rastro. Tudo tem seu resultado.

Uma entrega pode estar concluída e ter deixado medo. Uma relação pode continuar existindo e já ter apagado duas pessoas. Uma conversa pode terminar sem conflito e ainda ter cobrado de alguém o preço de desaparecer.

O contrário também é verdadeiro.

Há pessoas que entram num ambiente e não precisam ocupar o centro pra mudar o que acontece ali. Gente que entrega sem diminuir. Que diz a verdade sem ferir por vaidade. Que discorda sem apagar. Que faz o outro respirar sem precisar se defender o tempo todo.

Porque o resultado não é apenas aquilo que ficou pronto.

O resultado também é aquilo que ficou vivo.

Foi tentando compreender essa distância entre parecer inteiro e viver por inteiro que nasceu o meu livro INTEIREZA, que será publicado pela Literare Books International.

O livro atravessa trabalho, relações, vínculos, intimidade, escolhas e os rastros que deixamos. Também traz caminhos pra cultivar a Inteireza em nós e nas relações que construímos.

É pra quem percebeu que começou a se dividir pra caber. Pra quem deseja continuar sendo uma pessoa só, mesmo quando mudam a sala, o papel, o poder ou o olhar de quem está ao redor. E também pra líderes e profissionais de RH que querem tornar o resultado perene mantendo a alma viva na cultura da empresa.

No fim, é pra todos que querem viver uma vida sem se fragmentar.

E, pra nossa primeira conversa sobre o livro, é por aqui que eu quis começar.

Não por uma resposta pronta, mas por uma pergunta que eu também preciso continuar me fazendo:

que parte de você precisa ficar do lado de fora toda vez que você entra numa sala?

Qual foi a primeira? Em que sala ela ficou?

Você não precisa reorganizar a vida inteira amanhã. Mas pode dar o primeiro passo: reconhecer o que deixou pra trás e parar de fingir que não sente falta.

Porque a Inteireza não começa quando a gente finalmente se torna perfeito.

Inteireza começa no instante em que a gente volta pra buscar a parte de nós que ficou do lado de fora.

Viver por inteiro.

Sem deixar a alma do lado de fora.

Se isso também fala com você, aqui está a casa de INTEIREZA: rodrigokluska.com.br/inteireza.

Um abraço,

Rodrigo

Me responde essa carta. Gosto de pensar junto.