Carta da Semana / Carta #22
Ninguém transborda de uma xícara vazia
Só damos ao outro daquilo que temos.
Comece a leitura
Olá! Tudo bem com você?
Quem cuida de todo mundo só se mantém inteiro quando também cuida de si.
Essa frase tem uns porquês escondidos dentro dela. Eu quero abrir esses porquês com você, um de cada vez, com calma.
Em julho, eu escrevi uma Carta sobre uma cena da Copa do Mundo: jogadores e torcida da Inglaterra cantando juntos "Wonderwall", do Oasis, depois das partidas. Wonderwall é uma espécie de muro das maravilhas, um refúgio, aquilo em que a gente se agarra quando o mundo faz barulho demais. A Carta terminava com uma pergunta: *quem é o seu wonderwall?* (Se quiser relembrar, ela está aqui: Quem é o seu wonderwall?.)
As respostas vieram de todo jeito. Teve quem dissesse que é o marido, a esposa, a mãe, o pai. Teve quem respondesse "Deus". Teve quem mandasse a foto do cachorro (e eu não vou discutir, porque cachorro é muro dos bons).
Mas algumas respostas eram de outro tipo. Curtas.
"Infelizmente ninguém."
"O muro sou eu mesma. Sempre fui só eu."
"Eu sou o Wonderwall dos meus filhos."
E uma dizia mais ou menos assim: o que mais cansa é ser o muro de alguém e ver as pessoas derrubarem esse muro toda vez.
A pergunta tinha um avesso, e eu não tinha feito. Faço agora:
Quem segura quem segura todo mundo?
Ninguém agradece um muro
Repara numa coisa sobre muros.
Ninguém chega em casa, para na calçada e diz: "Nossa, que muro bonito, segurando a casa direitinho... Parabéns, muro!!" Ninguém agradece o muro. A gente nem olha pra ele.
Muro só vira assunto quando racha.
E é exatamente assim que vive a pessoa que segura todo mundo. Enquanto ela aguenta, quase ninguém repara. É como se ela fizesse parte da casa, do mesmo jeito que a geladeira, que o chão, que a luz que acende quando aperta o interruptor. Está lá. Sempre esteve. Funciona.
Você provavelmente conhece alguém assim. Talvez seja você.
É a pessoa que sabe onde está o cartão do convênio de todo mundo. Que lembra que acabou o papel higiênico antes de acabar. Que sabe o dia da vacina do filho, o remédio da mãe, o aniversário da sogra, o tamanho do sapato do sobrinho... Que, quando alguém da família briga, recebe as duas ligações. Que no trabalho é quem "resolve", e em casa é quem "dá um jeito". Que é a primeira a chegar quando alguém adoece e a última a ir embora quando a festa acaba, porque alguém precisa lavar a louça.
E que, se um dia diz "hoje eu não estou dando conta", ouve logo:
— Mas você é tão forte!
Parece elogio. E é. Só que é um elogio que pode prender, virar cargo. E cargo não tira férias.
O que já disseram sobre quem ajuda todo mundo
O psicanalista alemão Wolfgang Schmidbauer escreveu sobre o que chamou de síndrome do ajudante. O título de um dos livros dele já diz muito: Os ajudantes desamparados. Ele descreve pessoas que mostram uma fachada de força e de invulnerabilidade, que nunca deixam aparecer a própria fraqueza e que têm uma dificuldade enorme de perceber e dizer o que elas mesmas sentem e precisam. Pra elas, ajudar pode virar quase um vício. Segundo essa leitura, em algumas histórias a dificuldade começa lá atrás: uma criança que aprendeu que o carinho vinha quando ela era útil, quando ela dava conta, quando ela não dava trabalho. Cresce e vira um adulto que acredita, sem nunca ter dito em voz alta, que só tem valor enquanto serve.
Essa dificuldade de perceber o que falta pra si também aparece nas pesquisas das psicólogas Vicki Helgeson e Heidi Fritz. Em 1998, elas estudaram um traço chamado unmitigated communion (comunhão irrestrita ou absoluta), algo como uma entrega aos outros sem contrapeso. É quando a pessoa põe as necessidades dos outros sempre antes das próprias, se envolve demais nos problemas de todo mundo, mede o próprio valor pelo que os outros pensam dela e, curiosamente, fica desconfortável quando alguém tenta ajudá-la. As pesquisas associam esse jeito de viver ao sofrimento psicológico. O problema aparece quando a pessoa fica de fora do próprio cuidado.
Repara no detalhe que mais me pega: desconfortável quando alguém tenta ajudar. A pessoa que segura todo mundo é, muitas vezes, a pessoa que menos sabe ser segurada.
Há ainda outra parte desse retrato: o desgaste de permanecer perto da dor dos outros. Em 1995, o psicólogo americano Charles Figley escreveu sobre a fadiga por compaixão. Ele olhava sobretudo pra profissionais da saúde e da ajuda, e pro desgaste ligado ao contato com o trauma de outras pessoas. Quem já passou meses cuidando de um pai doente, de um filho em crise ou de um amigo que só liga quando está mal pode reconhecer algo dessa exaustão, mesmo vivendo outra situação. Não é falta de amor. É o amor gastando o corpo.
São caminhos diferentes, mas, quando volto praquelas respostas, o retrato fica mais nítido. A pessoa que segura todo mundo sente muito, fala pouco de si, não pede, estranha quando recebe, e vai se gastando sem fazer barulho. E, quando um dia desabafa, ainda corre o risco de ouvir que está fazendo drama. Uma das respostas que recebi dizia isso: que, quando a gente desabafa, já acham que é vitimismo. Então ela aprende a não reclamar. Engole, sorri e segue.
A xícara
A gente só dá ao outro daquilo que tem.
Pensa numa xícara.
Cada vez que você acolhe alguém, escuta, resolve, lembra, leva, busca, segura, você serve um pouco do que tem nela. E isso é lindo. É pra isso que a xícara existe. Ninguém enche uma xícara pra deixar no armário.
Só que a xícara não se enche sozinha. E quem segura todo mundo vive servindo. Um golinho pro filho. Um golinho pro chefe. Um golinho pra mãe. Um pro amigo que ligou chorando às onze da noite. Um pro grupo da família. Um pro vizinho. Um pro colega. Ninguém pede muito. É sempre "só um pouquinho".
E a xícara vai esvaziando.
O problema é que ninguém repara, nem a própria pessoa. E ela continua servindo. Inclina a xícara já quase vazia e oferece o que sobrou no fundo. Só que o fundo da xícara não tem o mesmo gosto. O que sai do fundo é a impaciência, a resposta seca, a escuta pela metade, o "estou bem" que não é verdade, a culpa por não estar dando conta. É a borra. E a gente ainda serve a borra e chama de paciência.
O monge Bernardo de Claraval dizia que quem é sábio deve ser como um reservatório, e não como um canal. O canal derrama na mesma hora tudo o que recebe e fica sempre vazio. O reservatório espera encher. E só então transborda, sem perder nada de si.
Olha o que diz o Salmo 23, aquele do "O Senhor é o meu pastor", que eu acho uma das imagens mais bonitas que existem:
"O meu cálice transborda."
Essa imagem me faz pensar num cálice tão cheio que já não consegue guardar só pra si. E no que acontece quando o cuidado transborda: o que cai pela borda também alimenta quem está perto.
É uma das coisas que quero dizer quando falo em INTEIREZA. Estar inteiro também é estar presente, por inteiro, no lugar onde a gente está. E essa presença precisa incluir a gente. Perceber a própria sede, reconhecer o cansaço, cuidar daquilo que nos devolve a vida. A xícara me lembra disso: o que a gente oferece de melhor aos outros não é o fundo que a gente insiste em raspar. É o que transborda.
A fonte
Então vem a pergunta mais importante de todas: onde a gente enche a xícara?
Porque ela não se enche sozinha. Não se enche com mais esforço, com mais força de vontade, com mais uma madrugada resolvendo a vida dos outros. A xícara se enche na fonte. E a gente precisa ir até ela. Sempre. Não uma vez por ano, nas férias, quando já está raspando o fundo. Sempre.
E é aqui que a frase volta, inteira:
Quem cuida de todo mundo só se mantém inteiro quando também cuida de si.
Não é egoísmo. É manutenção. Até muro de verdade precisa de reparo, senão a infiltração vai comendo por dentro, sem fazer barulho, até o dia em que aparece a rachadura que todo mundo vê.
Então, cuide de você. Por inteiro. Do físico, do espiritual, do intelectual, do emocional. Cuide de você.
Faça algo de que você gosta. Vá ao cinema, viaje, leia, cante, dance, medite, ligue pra um amigo ou pra uma amiga. Peça ajuda. Vá à terapia, vá à igreja, ore, brinque, se alegre. Vá sentir a natureza, pise na areia do mar, pule ondas... E durma. Descanse...
Cuidar de si não precisa ser mais uma coisa que você faz sozinho. Às vezes, ir à fonte é aceitar uma companhia. Outras vezes, é dividir a louça, uma preocupação, uma responsabilidade. É deixar um espaço pra que o cuidado também chegue até você.
Encha sua xícara... até o celular precisa ser recarregado. Recarregue-se.
Talvez você leia essa lista e pense: "Que bonito. Quando eu tiver tempo, eu faço."
Eu sei. Quem segura todo mundo nunca tem tempo. Mas repara na armadilha: a gente só arranja tempo pra encher a xícara quando ela já está vazia. E o cansaço também chega às relações: numa resposta mais seca, numa conversa que a gente já não consegue escutar, na distância de quem a gente ama. Perceber isso pode ser o começo da volta. A xícara vazia também pode voltar à fonte.
Encher a xícara preserva aquilo que a gente oferece aos outros e devolve alguma coisa a quem a segura. Você também merece cuidado quando não tem nada pra oferecer. Inclusive nos dias em que só consegue receber.
No fim, é simples, e é bonito. A gente não precisa estar cheio o tempo todo pra amar ou pra fazer o bem. Mas precisa cuidar da própria fonte pra que a entrega não vá nos esvaziando. E, quando a xícara volta a transbordar, o cuidado alcança quem está perto sem deixar a gente de fora.
Quem cuida de todo mundo só se mantém inteiro quando também cuida de si.
Um abraço,
Rodrigo
P.S.: se quiser, me responde este e-mail e me conta: o que enche a sua xícara?