RKRodrigo Kluska

Carta da Semana / Carta #21

Por que nunca estamos satisfeitos?

A felicidade não mora na janela dos outros, mas no quarto que esquecemos.

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Ilustração de uma pessoa em um quarto acolhedor ao anoitecer. Seu reflexo aparece no vidro da janela; lá fora, outras janelas estão iluminadas. Uma mesa com caderno aberto, fotografias e luz quente mostra a vida construída dentro do quarto.

Olá! Tudo bem com você?

Pouca gente sabe, mas durante quase quinze anos eu fui músico. O palco ficou pra trás; a mania, não. Até hoje eu escuto música do jeito que um cozinheiro experimenta uma comida nova: reparando no tempero, desconfiando do sal, querendo descobrir o que o outro pôs ali dentro.

Nesta semana, buscando novidades, cheguei à canção *The Room*, "o quarto", do cantor norte-americano Max McNown.

É uma canção de menos de quatro minutos, e cabe nela uma vida inteira. Começa com um homem debaixo de uma árvore da infância, lembrando que o quintal da avó parecia enorme e reparando que os galhos já não aguentam o peso dele. Termina com esse mesmo homem se imaginando velho, de costas curvadas e cabelo grisalho, perguntando se terá construído uma vida pela qual valha a pena morrer.

No meio do caminho, entre a árvore e a velhice, tem um quarto. E, no quarto, uma janela.

É dessa janela que nasce a pergunta que atravessa a música inteira. E é com ela que eu quero começar com você, sem rodeio:

Por que você nunca está satisfeito?

A grama do outro

A gente tem um ditado pra isso, e todo brasileiro conhece: a grama do outro é sempre mais verde do que a nossa.

Repara que ninguém precisa conferir. Ninguém pula o muro com uma régua de jardineiro e uma cartela de tons de verde. A gente simplesmente "sabe": a do outro é mais verde. Sempre foi. E o mais engraçado é que, do outro lado do muro, o vizinho está olhando pra nossa e pensando exatamente a mesma coisa. Dois homens, cada um no seu quintal, invejando o gramado um do outro.

Só que o ditado não fala de grama. Fala de um jeito de viver.

É o colega que foi promovido e, de repente, o seu cargo, que ontem estava ótimo, ficou pequeno. É a foto da viagem da prima, que transforma o seu fim de semana em casa num fracasso que você nem sabia que tinha. É o grupo da família anunciando que o filho de alguém passou no vestibular, e você olhando pro seu, que ainda nem sabe o que quer, com uma pontinha de aflição. É a cozinha planejada da amiga, o casamento que parece perfeito no álbum, o corpo de alguém que você nem conhece, a vida de quem posta café da manhã com flor na mesa às sete da manhã de uma terça-feira.

Nada disso estava errado na sua vida cinco minutos antes. Passou a estar quando você olhou pro lado.

Leon Festinger, psicólogo americano, descreveu esse movimento. A ideia dele é simples: quando a gente não tem uma medida objetiva pra saber se está bem, a gente se mede pelos outros. E, convenhamos, quase nada na vida vem com medida objetiva. Ninguém tem um termômetro que diga "você já é feliz o bastante". Então a gente olha pro lado. E o lado, quase sempre, parece estar melhor.

Por isso a pergunta não é por que a grama do outro é mais verde. É por que a gente passa tanto tempo olhando pra ela.

Um prédio cheio de janelas

Agora troca o muro por um prédio.

Imagina que você está na sua janela. Dela, dá pra ver outras janelas. Em cada uma, tem alguém olhando pra janela do outro. E cada um só enxerga um pedaço: a cortina meio aberta, um canto da sala, uma luz acesa, alguém rindo de uma coisa que você não ouviu. É pouco. Mas é o bastante pra gente montar na cabeça uma vida inteira e querer ser igual.

Lá embaixo, do lado de fora, tem um quintal. Um gramado, uma árvore. O quintal está ali o tempo todo. Quase ninguém olha pra ele.

Essa é a cena que eu quero que você leve deste texto. Um prédio de janelas, cada um espiando o outro, e um quintal esquecido lá embaixo.

Da janela do outro, você só vê o que ele permite. É de novo o iceberg: a ponta aparece, o resto fica debaixo d'água. Você vê a sala arrumada, não vê a pia cheia. Vê o sorriso na foto, não vê a briga cinco minutos antes. Vê o carro novo, não vê as quarenta e oito parcelas. Vê a promoção, não vê a insônia que veio com ela.

E aí acontece uma coisa curiosa. O vidro da janela começa a mentir.

Às vezes mente porque o outro mente mesmo: escolhe o ângulo, ajeita a luz, mostra o pedaço bonito e guarda o resto. Mas, muitas vezes, quem mente somos nós mesmos. A gente pega aquele pedacinho que viu e cria, dentro de nós, uma verdade inteira. Inventa a vida do outro a partir de uma foto. Imagina o que ele sente, o que ele tem, o quanto ele é feliz. E passa a querer a grama do outro, a vida do outro, a felicidade do outro.

Um outro que, muitas vezes, nem está tão feliz assim. E que, da janela dele, também está olhando pra alguém e querendo um quintal maior.

E o prédio só cresce. As janelas já não são só de vidro e alvenaria. Estão na tela do celular, que a gente abre dezenas de vezes por dia como quem abre a cortina pra espiar a rua. Estão nas postagens das pessoas. Estão até na inteligência artificial: pergunta pra uma como deveria ser a sua vida ideal e ela te devolve, em segundos, um catálogo com opções, prós, contras e um resumo no final.

E tem a janela mais antiga de todas, a vitrine. A palavra veio do francês e tem raiz no latim vitrum, vidro. A vitrine existe pra isso: pra gente querer. Marcas, objetos, estilos de vida, cursos, corpos, viagens, cada vez mais bonitos e mais na palma da mão. E vitrine nenhuma foi feita pra satisfazer ninguém. Foi feita pra fazer querer o próximo.

Nunca tivemos tantas janelas. E nunca foi tão fácil esquecer o quarto. E o quintal lá embaixo.

O quintal nunca encolheu

Pra entender por que a gente parou de olhar pro quintal, volta comigo pra infância.

Quando a gente é criança, o quintal é do tamanho do mundo. Ali cabem campo de futebol, esconderijo, pista de corrida e expedição pela selva, tudo na mesma tarde. Um muro baixo vira castelo. Uma árvore vira navio. E mesmo assim, olha que curioso: a criança já quer um quintal maior. Quer o da vizinha, que tem balanço. Quer o do primo, que tem piscina. O desejo de ter mais não chega com a vida adulta. Ele vem de fábrica.

E isso não é defeito. É vida querendo crescer. Ninguém precisa se envergonhar de querer.

Mas tem um detalhe que quase ninguém percebe. Nenhum quintal diminui de tamanho. Aquele quintal da infância, se você voltar lá hoje com uma trena, vai ter exatamente as mesmas medidas. O que muda é a nossa percepção dele. E ela muda, muitas vezes, conforme o que as pessoas vão querendo de nós.

Primeiro são os pais, os avós, os donos da casa. Depois a escola, os professores, os amigos. Depois o chefe, o mercado, o banco, o algoritmo. Cada um chega com uma régua. E a gente, aos poucos, vai aposentando a nossa.

O psicólogo Carl Rogers, um dos fundadores da psicologia humanista, deu nome a esse mecanismo: condições de valor. São as regras que a criança aprende pra continuar sendo amada. Se eu for assim, gostam de mim. Se eu tirar essa nota. Se eu não chorar. Se eu escolher essa profissão. Se eu tiver esse corpo. Se eu ganhar esse tanto. Ninguém precisa dizer isso em voz alta. A criança entende pelo olhar, pelo elogio que vem ou não vem, pelo silêncio na mesa. E leva essas regras pra vida inteira, achando que são dela.

O resultado, dizia Rogers, é uma distância cada vez maior entre a pessoa que a gente é e a pessoa que a gente mostra. A gente passa a valorizar as coisas não pelo que elas fazem com a gente, mas pelo que elas fazem com o olhar dos outros sobre a gente.

Isso aparece até no que a gente sabe. Quando criança, a gente acha que crescer vai trazer as respostas. Aí cresce, estuda, trabalha, aprende um bocado de coisa. E continua achando que não sabe. Que precisa de mais um curso, mais um título, mais um ano. Que ainda é pouco. O quintal é o mesmo. A régua é que mudou de dono.

Os fantasmas

E, quando a régua muda de dono, a gente passa a vida perseguindo fantasmas. E pode acabar assombrado por eles.

Eles são tudo aquilo que a gente coloca nas mãos dos outros pra decidir por nós. A aprovação de que a gente depende pra se sentir feliz. A vontade de agradar todo mundo. A vontade alheia que a gente põe aqui dentro e passa a chamar de nossa.

Fantasma tem isso: parece real, mete medo, ocupa a casa inteira e não tem corpo. Você tenta abraçar e não tem nada ali. É exatamente o que acontece quando a gente alcança uma coisa que nunca foi nossa. Chega, a gente estende a mão, e não tem nada pra segurar.

É o advogado que queria ser marceneiro, mas o pai tinha um escritório. É a mulher que fez a festa de casamento que a sogra sonhou. É o homem que comprou o carro pra garagem do condomínio ver, e não pra estrada. É o jovem que escolheu a faculdade que dava orgulho no almoço de domingo. Nenhuma dessas pessoas é fraca. Todas foram, em algum momento, generosas demais com a vontade dos outros.

O pior é que o fantasma não vai embora quando a gente para de persegui-lo. Ele fica. E aí vem o assombro: os traumas de ter vivido a vida dos outros em vez da nossa. O cansaço de uma carreira que nunca coube. A culpa de não ter ficado feliz com o que todo mundo dizia que ia fazer você feliz. A sensação estranha de olhar pras próprias conquistas como quem olha pra casa de um conhecido.

Às vezes, a gente tenta voltar ao começo. Revê fotos antigas, lembra quem era aos quinze, aos vinte, aos trinta. E percebe que muitas daquelas versões não eram a gente. O que a gente achava que era, era pelos outros. Era o filho que o pai queria, o amigo que a turma aprovava, o profissional que o currículo pedia. A nossa satisfação era os outros estarem satisfeitos com a gente.

A gente foi sendo "eus" que não eram a gente.

Cada um desses "eus" foi uma espécie de fachada, construída pra se adaptar ao que esperavam da gente. Funciona. Protege. Às vezes, salva. Mas, quando ocupa o lugar da casa inteira, a pessoa pode parecer real pros outros e se sentir vazia por dentro.

E o mais duro: a gente só percebe que se perdeu quando para pra revisar a vida.

O quarto

Então para um pouco. Em vez de olhar pra fora, pra janela, pra grama do vizinho, olha pra dentro, pro seu próprio quarto.

Ali estão os diplomas, os certificados, as medalhas, a foto com o presidente da empresa, o prêmio do ano em que você bateu a meta. Cada quadro, um pedaço de conquista. Tudo pendurado, emoldurado, bonito de ver.

Isso tudo é reconhecimento. Por tantas conquistas, tantos objetivos alcançados, tanta vida vivida.

Ali também estão o caderno onde você se expressa, a cama onde você chora, o chão onde você se ajoelha nos seus momentos mais íntimos. Estão seus segredos, suas paixões.

Pra delimitar esse seu espaço íntimo existe uma porta.

No século XVII, Pascal escreveu uma frase que parece ter sido feita pra este texto: toda a infelicidade dos homens vem de uma coisa só, de não saberem ficar em repouso num quarto.

Num quarto.

A próxima porta

O problema é que, quando a gente passa a viver só olhando a janela dos outros, a porta do nosso quarto deixa de limitar o nosso espaço. A gente passa a depender também da porta dos outros. E se perde tentando atravessar a próxima. E a próxima. E a próxima.

Você conhece essa lista. Ela tem versão pra cada idade. O próximo emprego. O próximo prêmio. A próxima viagem, que dessa vez vai fazer você descansar de verdade. O próximo aumento, que dessa vez vai fazer sobrar. A próxima casa, que dessa vez vai ter o quarto que faltava. O próximo corpo. O próximo amor, que dessa vez vai ser o certo.

A vida inteira num carrinho de compras com uma etiqueta escrita "próximo".

Porta é passagem. Quarto é permanência. Quem vive atravessando portas não mora em quarto nenhum.

A psicologia tem um nome pra isso: esteira hedônica. A gente conquista, se alegra, se acostuma e volta mais ou menos ao ponto de partida. Não vale igual pra todo mundo, e ninguém está condenado a ela. Mas a tendência existe: a gente corre, corre, corre e a esteira continua no mesmo lugar. Só o cansaço avança.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman dedicou vários livros ao que chamou de modernidade líquida: um tempo em que o que era sólido se desmancha, os laços se desfazem depressa e a satisfação dura pouco. Ele falou até de amor líquido, de relações que a gente descarta antes de aprofundar.

Eu acho que a gente vive também de quereres líquidos. Eu quero, conquisto e não dou valor, porque, quando aquilo chega, o querer já mudou. O celular novo vira celular comum em três semanas. O cargo novo vira o cargo de sempre no primeiro ano. Não porque nada disso tenha perdido valor. Porque o querer, que é líquido, já escorreu pra outro lugar.

E isso não é novidade nenhuma. Há mais de dois mil anos, o livro de Eclesiastes já dizia: "Não importa quanto vemos, nunca ficamos satisfeitos; não importa quanto ouvimos, nunca nos contentamos" (Eclesiastes 1.8, NVT). Nunca ficamos satisfeitos. E o mesmo livro chama de correr atrás do vento boa parte do que a gente persegue. Correr atrás do vento.

Agora faz uma coisa comigo.

Espera anoitecer. Acende a luz do quarto e olha de novo pela janela.

O vidro vira espelho.

Você continua vendo as janelas lá fora, as luzes dos outros, as vitrines acesas, o quintal escuro. Mas, por cima de tudo isso, aparece o seu rosto, misturado com a paisagem. Como se o vidro, que passou o dia inteiro te mostrando a vida dos outros, resolvesse finalmente te mostrar quem estava olhando.

Às vezes é aí que os joelhos vão pro chão. De cansaço, de rendição ou de oração.

Não é parar de querer

Calma. Não estou aqui pra te dizer que querer é errado.

Viver só tem sentido se ainda temos o que almejar. Desejo, sonho e objetivo se renovam e dão direção à vida. Uma pessoa que não quer mais nada não está em paz. Está parada. E parado ninguém chega a lugar nenhum, nem ao próprio quarto.

Então o problema não é o querer. A pergunta que devemos nos fazer é sobre o que esse querer faz com o caminho que escolhemos. Ele nos aproxima do nosso propósito? A medida de alguém pode até nos ajudar. Mas precisa conversar com aquilo que queremos viver e oferecer ao mundo. E, quando uma conquista chega, precisamos conseguir reconhecê-la.

Se o querer é nosso, nasce da nossa raiz, do nosso propósito, daquilo que a gente gosta e que nos completa, ele empurra a vida pra frente. Se o querer é emprestado, nasce da janela do outro e está desalinhado ao nosso propósito, ele só empurra a gente pra próxima porta.

E, quando conquistamos o que era do nosso querer, ainda falta uma coisa. Ser grato. Perceber. Celebrar o que foi alcançado.

Sem celebração, toda conquista já nasce velha. Chega como ponto de partida do próximo querer. É a celebração que transforma o querer em ter.

Pensa em quantas vezes você conseguiu uma coisa que desejou por anos e, no mesmo dia, já estava pensando no passo seguinte. A aprovação que você esperou tanto virou só o começo do próximo semestre. O negócio que você abriu com tanto medo virou, no primeiro mês bom, a meta do segundo. Ninguém parou pra brindar. Ninguém disse, nem pra si mesmo: "eu consegui".

E isso não é só bonito. Tem pesquisa. Em 2003, os psicólogos Robert Emmons e Michael McCullough pediram que algumas pessoas anotassem, toda semana, coisas pelas quais eram gratas. Comparadas com quem anotava aborrecimentos ou acontecimentos neutros, elas mostraram mais bem-estar. Não é mágica. É treino de olhar pra dentro do quarto.

Sêneca escreveu a um amigo que pobre não é quem tem pouco, mas quem só deseja mais. A medida não está no tamanho do que se tem. Está na relação com o que se tem.

E, preso, o apóstolo Paulo escreveu aos filipenses uma frase que vale ler devagar: "já aprendi a contentar-me com o que tenho" (Filipenses 4.11). Repara no verbo. Aprendi. Contentamento não é temperamento de quem nasceu calmo. Contentamento se aprende, se ensina e se exercita.

Estar inteiro

É aqui que essa pergunta encontra a INTEIREZA.

Estar inteiro não é parar de querer, nem pendurar mais um troféu, nem conseguir, finalmente, a grama mais verde da rua. Estar inteiro também é estar no quarto onde está o corpo. É conhecer a própria porta, as próprias bordas, o próprio tamanho. É medir a vida com a régua do propósito, e não só com a régua de quem olha pela janela.

Não se trata de jogar fora a medida dos outros. Tem gente que nos mede alinhada com o que somos, e essa medida ajuda. Um amigo que diz "você pode mais" (porque te conhece) não é um fantasma. Trata-se de colocar qualquer medida diante daquilo que a gente veio fazer aqui. E de perguntar, antes de correr: esse querer é meu?

E é, sobretudo, olhar pra dentro do quarto e enxergar o que já está ali. As pessoas. A história. As raízes. O caminho que uma árvore percorre ao crescer, mesmo ainda sem fruto à vista.

Ninguém fica inteiro somando fragmentos emoldurados. A gente fica inteiro quando para de se espalhar pelas janelas dos outros e volta a morar em si.

Em algum momento da vida, quando olharmos pra trás, algumas perguntas podem ser muito mais duras do que todas as outras.

Terei construído uma vida que tenha valido a pena? Qual foi a obra que eu construí? E a que custo, pra mim e pra quem estava por perto? Vou estar satisfeito? Ou ainda vou estar querendo mais?

Quando eu falo numa vida que valeu a pena, é desse reconhecimento que estou falando.

O psicanalista Erik Erikson, que estudou o desenvolvimento humano do berço à velhice, deu nome a essa última encruzilhada: integridade contra desespero. Integridade é olhar pra trás e reconhecer a vida vivida como sua, com sentido. Desespero é sentir que o tempo acabou e que não dá mais pra tentar outro caminho. E a palavra que ele escolheu, integridade, vem do mesmo lugar que inteiro: do latim integer, aquilo que não foi partido.

Essas perguntas ganham outro peso quando já não temos tanto tempo para mudar o caminho.

Uma enfermeira australiana chamada Bronnie Ware passou anos cuidando de pessoas nos últimos dias de vida. Depois, contou o arrependimento que mais ouviu delas: não ter tido coragem de viver uma vida fiel a si mesmas, em vez da vida que os outros esperavam. Não é pesquisa. É o relato de quem estava ali, ao lado da cama. Mas é difícil não reconhecer nele os nossos fantasmas.

Só que essas perguntas não precisam esperar o cabelo branco. Ninguém sabe quando a vida termina. Elas podem ser feitas todos os dias.

Hoje, inclusive.

De volta à janela

Então volta comigo pra janela do começo.

Lá fora continuam as outras janelas, cada uma mostrando um pedaço. A grama do outro continua mais verde, porque de longe ela sempre vai ser. As vitrines continuam acesas, o celular continua vibrando, e o próximo amor, o próximo prêmio e a próxima casa continuam passando pela calçada.

Lembre-se sempre de olhar pro seu quarto. Pra parede. Pras pessoas que dividem a casa com você. Pro que você já construiu e nunca parou pra celebrar. Pro quintal, que nunca encolheu. Pra árvore, que continua lá, crescendo, mesmo quando ainda não tem fruto.

A felicidade não mora na janela dos outros. Mora no quarto que a gente esqueceu.

Talvez a pergunta do começo nunca tenha sido por que você nunca está satisfeito.

Talvez seja outra, mais curta e ainda mais difícil. Responde só pra você, sem plateia em janela nenhuma:

O que, aí dentro do seu quarto, ainda está esperando você perceber?

Um abraço,

Rodrigo