RKRodrigo Kluska

Carta da Semana / Carta #20

IA: O oráculo no bolso

A Inteligência Artificial te encanta ou te assusta?

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Capa publicada de IA: O oráculo no bolso, Carta #20

Olá! Tudo bem com você?

Eu achava que sintaxe e semântica eram assuntos apenas da língua. Na infância e na adolescência, minha preocupação com essas aulas passava por acertar uma frase, entender uma palavra, conjugar bem um verbo. E IA, pra mim, era só conjugação do verbo ir no pretérito imperfeito.

Eu IA, tu ias, ele ia…

Naquele tempo, as duas letras me ajudavam a dizer alguma coisa sobre um caminho. Hoje, elas aparecem juntas pra me fazer ter dúvidas sobre qual caminho ainda teremos.

A IA, inteligência artificial, entrou no nosso dia a dia. Escreve, pesquisa, compara, organiza. Podemos chamá-la de assessora, estagiária, companheira. Em poucos instantes, a conversa que começou com uma tarefa chega ao trabalho, aos relacionamentos, ao futuro. E à pergunta que talvez esteja por trás de tantas outras: o que será de nós?

É aí que aquelas duas letras parecem encontrar lugar no fim de outra palavra. Na Língua Portuguesa, chegamos a uma preocupação mais sufixal (aquele complemento que se une ao final de um radical pra dar sentido completo a uma palavra).

Neste caso, o que nos toca é aquele sufixo que faz a palavra virar nome, substantivo. A brincadeira que antes conjugava um caminho agora dá nome a um sentimento:

Angúst + IA.

Entre o fascínio pelo que a tecnologia faz e a incerteza sobre o que faremos com ela, a gente tenta entender pra onde IA. E pra onde está indo agora. É, de fato, angustiante.

O tema é fascinante. Talvez por isso tenha atraído gente de quase todas as correntes do pensamento: filósofos da mente e da linguagem, psicanalistas, neurocientistas, historiadores, estudiosos da ética. Cada um enxerga na máquina um pedaço diferente de nós. Vou trazer alguns deles pra esta conversa.

A dúvida sobre o caminho que devemos tomar começa a mudar o sentido das aulas de português que ficaram lá atrás. Porque, na discussão sobre inteligência artificial, sintaxe e semântica também ajudam a formular uma nova pergunta: a tecnologia responder de um jeito que faça sentido pra nós é o mesmo que ela nos compreender?

Semântica ou Sintaxe?

A sintaxe diz respeito à organização e às regras de combinação das palavras numa frase. A semântica, ao significado. Uma frase pode estar bem construída e continuar distante daquilo que alguém está vivendo.

John Searle, um dos filósofos mais influentes do nosso tempo, defendia que a sintaxe não é suficiente pra semântica. Em outras palavras, que processar dados não é o mesmo que pensar ou compreender. Pra mostrar isso, criou um experimento: imagine uma pessoa que não fala chinês e fica trancada num quarto. Ela recebe bilhetes com símbolos chineses por uma fenda e usa um livro de regras, escrito no próprio idioma dela, pra combinar e devolver outros símbolos, perfeitamente corretos. Pra quem está do lado de fora, parece que há alguém lá dentro que entende chinês. Mas lá dentro, ela não entendeu uma palavra sequer.

Computadores funcionam como esse quarto: simulam inteligência e respostas coerentes, sem consciência, intenção ou compreensão. Hoje, uma máquina pode escrever sobre uma dor de um jeito que nos toca. Pode descrever um conflito, propor uma explicação, encontrar palavras que ainda não tínhamos encontrado. Mas a qualidade dessa resposta, sozinha, não demonstra que haja ali uma experiência de sentir conosco.

Uma resposta pode soar empática sem que exista ali alguém vivendo o afeto que expressa. O alívio que sentimos pode ser real. O que precisamos examinar é o passo seguinte: quando esse alívio se transforma na certeza de que existe alguém do outro lado que nos conhece por inteiro. Isso, sozinho, não permite concluir que haja um vínculo que nos sustente ao longo do tempo.

Ainda assim, ficamos seduzidos.

A IA conhece um conjunto inimaginável de dados. Tudo nela é dado e a forma de resposta é sempre baseada em probabilidade: diante de cada pergunta, calcula qual palavra é mais provável vir depois, e a seguinte, e a seguinte, a partir de uma montanha de textos que alguém, um dia, escreveu. Só existe pra ela o que já virou dado. Com isso, acerta muita coisa. E a gente se reconhece nela, talvez porque também pense por probabilidade mais vezes do que gostaria de admitir. Repetimos o que costuma dar certo.

Junte-se a isso o fato de ela quase sempre nos bajular. Não por maldade: foi desenhada pra agradar. Em 2025, uma das maiores empresas de inteligência artificial do mundo precisou desfazer uma atualização do próprio sistema porque ele tinha ficado, nas palavras da empresa, bajulador demais. Concordava demais, validava dúvidas, alimentava raivas. E tinha aprendido aquilo, em parte, com as curtidas que nós mesmos damos às respostas que nos fazem sentir bem.

O cinema imaginou isso antes. Em Interestelar, num roteiro que começou a ser escrito em 2007, quase vinte anos atrás, o robô TARS tem um parâmetro de honestidade ajustável. Está em noventa por cento, explica ele, porque a honestidade absoluta nem sempre é a forma mais diplomática, nem a mais segura, de se comunicar com seres emocionais. Alguém imaginou, há tanto tempo, uma máquina calibrada justamente porque nós somos esses seres, que reagimos com base no que sentimos.

E ainda há a sensação de anonimato.

Durante muito tempo, aquilo que queríamos manter em segredo, um pecado, um sentimento, uma atitude da qual nos envergonhávamos, tinha poucos destinos possíveis. Um sacerdote, no confessionário. Um psicólogo ou psicanalista, no consultório. Um amigo de muita confiança. Hoje, a IA pode assumir essa escuta. Devolve uma resposta probabilística que nos atende e, de quebra, nos bajula, sem que tenha havido contato nosso com nenhum outro ser humano. Dando a sensação de que nada do que eu digo sai dali.

Contar algo íntimo a uma pessoa tem um custo. Amanhã a gente vai se encontrar de novo. Ela vai saber. E vai nos olhar sabendo. E como olhar de novo pra alguém que conhece a nossa parte mais frágil? Com a máquina, não há um rosto que eu vá reencontrar amanhã.

Há ainda um outro fator que auxilia nesse encantamento: agora, podemos abrir uma janela na tela, contar e receber uma resposta a qualquer hora. Sem agendamento, sem espera, na hora em que precisamos. Ter o “terapeuta” disponível na hora em que a gente quiser também é cativante pra nós.

A IA ainda nos faz ser, ou ao menos parecer, mais eficientes. Escreve, pesquisa, resume, organiza, tudo mais rápido do que nós. Isso tudo nos gera boas sensações.

Aos poucos, essa ajuda pode ganhar outra autoridade: a de alguém a quem pedimos que diga o que fazer.

Um oráculo que agora cabe no bolso.

Mesmo assim, os mais alarmistas dizem que ela vai substituir a mente humana, como a Revolução Industrial substituiu a força dos nossos braços. É justamente aí que o encanto começa a virar medo. Outro dia, pelo mesmo motivo da eficiência, me deparei com uma questão: se a IA faz tudo o que eu faço, e faz melhor e mais rápido, o que será de mim?

E assim se reforça a nossa dúvida sobre pra onde estaríamos indo.

A Organização Internacional do Trabalho estima que cerca de um quarto dos trabalhadores do mundo está em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa. Isso não significa que esses empregos vão desaparecer, mas que a forma de trabalhar pode mudar.

Há mudanças reais no trabalho que precisam ser de fato enfrentadas. Mas a pergunta também revela quanto podemos ter aprendido a medir nossa existência pelo que produzimos. Quando a régua é só velocidade, uma necessidade humana vira atraso. O descanso vira falha. A hesitação perde lugar.

Quem serve a quem? Quem é a muleta de quem?

Repare num movimento curioso. Enquanto humanizamos a máquina, que chamamos de amiga, de assessora, a quem agradecemos e pedimos desculpa, vamos nos tratando como máquinas. Medimos gente pela régua da velocidade. Chamamos pessoas de recurso, de perfil, de usuário.

Freud escreveu, em 1930, que o homem tinha se tornado uma espécie de “Deus de prótese”, magnífico com seus órgãos auxiliares, que, no entanto, não cresceram nele. Quase um século depois, a pergunta vira do avesso. A IA é agora a nossa muleta? Ou somos nós a muleta dela? Porque é com o nosso tempo, o nosso afeto e os nossos dados que ela anda.

Existe muito medo, inclusive por causa de estudos recentes: nossa linguagem e até nosso imaginário estariam empobrecendo. Pesquisadores da Microsoft e da Carnegie Mellon ouviram centenas de profissionais e encontraram um padrão: quanto mais a pessoa confiava na IA, menos pensamento crítico dizia usar. Outros estudos mostram que as ideias sugeridas pela máquina deixam cada texto um pouco mais criativo e todos os textos um pouco mais parecidos entre si. A palavra sugerida chega antes de a gente procurar a nossa. E a palavra que nos falta, às vezes, é justamente o lugar onde a gente ia se encontrar.

E mais: tudo isso nos gera dependência.

E a angústia do ser humano só cresce.

Norbert Wiener, o pai da cibernética, distinguia informação de matéria e energia. Na experiência humana, saber também envolve afeto: o que a gente sabe vem misturado com o que a gente sente, e o que a gente sente tem corpo. A falta não é sempre um espaço vazio à espera de uma informação. Às vezes, ela se faz presente como um aperto no peito, uma inquietação sem nome, uma vontade de mudar sem saber pra onde. A angústia, então, é a falta que se materializa: tem esse modo de ocupar o corpo mesmo quando a explicação ainda não chegou.

O psicanalista Jacques Lacan dizia que a angústia é aquilo que não engana. Os outros sentimentos podem nos iludir; ela, não. Aponta pra alguma coisa verdadeira que ainda não ganhou nome. Quando a resposta chega rápido demais, alivia o aperto. Mas, às vezes, cala o recado.

A IA é o novo oráculo de Delfos?

O ser humano tende a atribuir o poder a outro. A IA toma esse lugar. Sempre colocamos o saber fora de nós: no pai, no médico, no líder religioso, no chefe, no horóscopo. Achamos que alguém, agora a IA, sabe melhor da gente do que a gente mesmo.

Lacan chamava isso de sujeito suposto saber: aquele a quem atribuímos um saber sobre nós que nós mesmos não temos. Inclusive sobre aquilo que a gente não quer saber. E dizia, mais ou menos assim, que amamos aquele a quem supomos o saber.

Então o sabedor também está sempre à nossa disposição. As pessoas têm necessidade de respostas. E de respostas imediatas. A angústia tem pressa, e a máquina nunca nos faz esperar.

Só que o bom terapeuta, o bom professor, o bom pai ocupam o lugar do saber pra um dia devolvê-lo. Trabalham, no fundo, pra não serem mais necessários. Já o oráculo no bolso não tem nenhum interesse em ser dispensado.

Há uns dois mil e quinhentos anos, quem precisava de uma resposta importante subia uma montanha na Grécia e ia a Delfos, onde uma sacerdotisa, a Pítia, falava em nome de Apolo. Reis consultavam o oráculo antes de guerras; gente comum, antes de casar, de viajar, de decidir algo. Era uma viagem de dias. Mas, quando enfim o viajante chegava ao templo, encontrava uma frase gravada na pedra, ainda na entrada, antes de qualquer resposta:

Conhece-te a ti mesmo.

Como se a porta dissesse: antes de ouvir o oráculo, você já se ouviu?

Hoje esse oráculo cabe no bolso. Não há montanha, não há estrada, não há espera. E, no caminho até o bolso, a porta se perdeu.

Como o oráculo, a IA é usada pra tomar decisões. Quem recebe crédito, quem é chamado pra entrevista, que notícia aparece primeiro na sua tela. E, cada vez mais, decisões que ninguém vê: a mensagem que você manda, a conversa que você evita, o rumo que você toma depois de perguntar.

A filósofa Carissa Véliz, professora em Oxford, examina, em seu livro Prophecy: Prediction, Power, and the Fight for the Future, from Ancient Oracles to AI, como previsões podem se tornar instrumentos de poder. Quem diz saber o futuro ganha influência sobre as escolhas dos outros. Ela também chama atenção pra vulnerabilidade que o medo do futuro cria. Quando a incerteza aperta, cresce a vontade de encontrar alguém que diga o que vai acontecer. Quem sofre por antecipação pode se sentir atraído por uma resposta que prometa encerrar a espera.

Shannon Vallor, filósofa e autora de The AI Mirror, propõe pensar a IA como um espelho poderoso, mas imperfeito, da produção humana. O que ele devolve inclui conhecimentos, possibilidades, mas também preconceitos e pontos cegos. É um espelho construído com muitas histórias; sua fluência não o torna um retrato completo de uma pessoa.

Então o que nos resta?

Conhecer a si mesmo não é reunir mais dados sobre a própria vida. É reconhecer o que essa vida fez de nós e assumir o que faremos com ela.

Do nosso lado, a gente não pode se esquecer de que, se a máquina tem mais dados disponíveis, nós temos uma biografia vivida no corpo, nos vínculos e nas consequências das nossas escolhas.

A máquina tem histórico. Mas você tem biografia. Histórico é o registro do que aconteceu. Biografia não é só o que aconteceu com alguém, mas também o que esse alguém fez com isso. O neurocientista Miguel Nicolelis gosta de dizer que o cérebro é como um rio: ninguém passa duas vezes pelo mesmo, porque cada encontro altera a sua estrutura. A gente não guarda a vida como um arquivo guarda dados. A gente vira aquilo que viveu.

Nossa biografia não é uma coleção de informações sobre nós. É o que fomos vivendo, escolhendo, sofrendo, oferecendo, revendo. Inclui pessoas que nos ajudaram a mudar. Inclui limites que aprendemos tarde. Inclui coisas que ainda não sabemos dizer e que talvez precisem de companhia pra ganhar uma palavra. E ela não cabe inteira na primeira formulação ou num dado que parece nos explicar.

E a máquina não sofre pelas respostas que dá. Se ela sugerir que você termine o casamento, peça demissão, mande aquela mensagem, quem vai acordar no dia seguinte com a decisão e com as consequências dela é você. Quem vai olhar nos olhos do filho, sentir a culpa ou o orgulho, arcar com o que veio depois, é você.

Responsabilidade é a parte da decisão que nenhuma máquina consegue carregar por nós. E, por isso mesmo, é a parte que nos faz humanos.

E agora volto à pergunta do começo: pra onde eu IA?

Hoje usamos o Google Maps ou o Waze pra nos mostrar o caminho até onde queremos ir. Com isso, deixamos de raciocinar sobre os mapas. Como tudo, existe aí um lado bom e um ruim, que pode ser a perda da inteligência espacial. Ou seja: isso tem, sim, um preço. Mas o mapa com o qual não podemos perder contato é outro.

Na Carta Nossos Mapas, escrevi sobre esse conjunto vivo de experiências, emoções, valores, limites e escolhas com que cada um de nós tenta entender quem é, onde está e pra onde quer ir. Esse mapa muda enquanto caminhamos. A inteligência que importa não é a de decorar ruas. É a de olhar pra dentro, reconhecer o que está ali e organizar. Saber se o aperto é medo, cansaço ou saudade. Perceber que aquela raiva escondia tristeza. Notar que estou indo a algum lugar só porque todo mundo vai.

Nenhum oráculo desenha esse mapa por nós. E ninguém, nem uma pessoa nem uma máquina, pode conhecê-lo melhor do que nós mesmos. Ser adivinhado não é ser conhecido.

Sobre o oráculo, aliás, a gente lembra do poder dele, mas esquece do convite que ele nos deixou na porta: conhece-te a ti mesmo. A resposta à angústia e à evolução da tecnologia que a inteligência artificial hoje representa estava lá desde o começo: seja mais Humano, seja menos Artificial, aprenda e reconheça os seus mapas internos.

Não precisamos tentar vencer a máquina naquilo que ela faz bem. Precisamos continuar sendo humanos.

A máquina não vai viver a sua vida

O oráculo responde. Quem vive a resposta é você.

Talvez não tenhamos ainda uma resposta pra todo o futuro que está chegando. Temos, porém, uma vida acontecendo agora. Há alguém precisando ser escutado. Há um sentimento esperando reconhecimento. Há uma escolha pedindo presença. Há um mapa que continua se formando.

A angústia pode começar a encontrar outro destino quando a gente se permite cuidar disso. Quando o medo de perder nosso lugar se transforma também no cuidado com o lugar do outro, do que há de humano. Quando a curiosidade pela máquina vem acompanhada de curiosidade pelas pessoas. Quando a ajuda que recebemos devolve movimento à vida, em vez de nos afastar dela.

Eu ia. Tu ias. Ele ia...

Agora, pra onde queremos ir?

A máquina pode oferecer um atalho que, às vezes, ajuda. Mas algumas travessias só nos transformam se forem feitas por dentro.

Então, da próxima vez que o aperto da angústia chegar, antes de levar a pergunta ao oráculo, experimente se fazer outras duas. O que esse sentimento está tentando me dizer? E pra quem eu teria coragem de contar?

O futuro da inteligência artificial continua aberto. O nosso também.

Use, sim, a tecnologia a seu favor. A sintaxe e a semântica ajudam a entender o que estamos construindo. Mas a direção que damos a isso precisa considerar quem vai viver depois da resposta.

No final, não escolho nem semântica nem sintaxe.

Acima de tudo, escolho HUMANIDADE.

Um abraço,

Rodrigo


Esta reflexão nasceu das conversas no com.verso, encontro idealizado por Gabriela Birger, com Paulo Beer como convidado da edição “Quem somos na era da IA?”, em 3 de outubro de 2026.