RKRodrigo Kluska

Carta da Semana / Carta #19

Antes que se veja

O amor atravessa o tempo. Mas não o devolve.

Comece a leitura
Capa publicada de Antes que se veja, Carta #19

Olá! Tudo bem com você?

Todo “depois eu ligo” que dizemos entrega um relógio a alguém.

A gente acha que marcou uma conversa pra mais tarde. Mas talvez tenha criado uma espera.

Porque um relógio não mede só o tempo. Às vezes, mede a distância entre duas pessoas que se amam.

Foi nisso que fiquei pensando ontem, enquanto revia o filme Interestelar por conta de um evento que vou participar nessa semana. Há uma cena em que um pai está prestes a partir numa missão que pode salvar a humanidade, mas talvez não permita que ele volte. Antes de ir, entrega um relógio à filha pequena.

— Quando eu voltar, a gente compara.

Parece uma promessa de reencontro. E é. Mas também é uma aposta que nenhum dos dois sabe se vai ganhar: a de que o tempo dele e o tempo dela ainda vão se encontrar em algum lugar do futuro.

Não vão. Perto de um buraco negro, algumas horas pra ele correspondem a muitos anos pra quem ficou na Terra. Enquanto o pai vive um intervalo, a filha vive uma infância, uma juventude, uma vida. Ele recebe mensagens e vê, numa tela, o rosto dela mudar. Cada gravação traz alguma coisa que aconteceu sem ele. Uma conquista. Uma perda. Um aniversário. Um pedaço de vida que não deixou de existir só porque ele estava longe.

O tempo passa pra todo mundo, mas não passa do mesmo jeito dentro de uma relação.

Quem parte costuma chamar de intervalo. Pra quem espera pode ser uma vida.

Em outro momento, a cientista Amelia Brand arrisca uma ideia que soa ingênua no meio de tantos cálculos. Talvez o amor seja mais do que uma invenção da nossa espécie. Talvez seja alguma coisa que ainda não sabemos medir, mas que consegue atravessar tempo e espaço.

Muito depois, quando todas as explicações parecem insuficientes e Cooper ainda procura um caminho até a filha, TARS pergunta como ele pretende encontrá-la.

— Amor, TARS. Amor.

Foi a partir dessa ideia que eu quis escrever sobre o tempo e as relações.

Porque a gente não atravessa buracos negros, mas vive entregando relógios uns aos outros.

Todo “depois eu ligo” entrega um relógio.

Todo “quando as coisas acalmarem” entrega um relógio.

Todo “esse ano ainda dá tempo” entrega um relógio.

Quem promete acredita que está guardando alguma coisa pro futuro. Quem ouve começa a esperar no presente. E, quase nunca, os dois percebem que os ponteiros já estão correndo em velocidades diferentes.

Não é sempre falta de amor. Às vezes, é justamente o contrário. A gente trabalha mais porque ama. Adia um encontro porque está tentando consertar a vida. Diz que volta depois porque quer voltar melhor, mais tranquilo, com mais tempo, com alguma coisa resolvida.

Mas a intenção de voltar não faz o tempo de quem espera parar.

Uma criança continua crescendo. Os pais continuam envelhecendo. Um amigo aprende a não convidar tantas vezes. Duas pessoas podem dividir a mesma casa e, ainda assim, morar em horas diferentes. Uma fala enquanto a outra termina uma mensagem. Uma pede presença enquanto a outra oferece planos. Uma está tentando viver o encontro. A outra acredita que haverá outro igual.

Talvez haja.

Igual, não.

Tem um poema de Mario Quintana que me dói toda vez que releio: “Seiscentos e sessenta e seis”, publicado no livro \Esconderijos do tempo\ (L&PM, 1980):

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio,
seguia sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho
a casca dourada e inútil das horas.

A casca é dourada porque a hora parece valiosa enquanto ainda está nas nossas mãos. A gente a protege, organiza, economiza, preenche. Mas uma hora guardada sem ter sido vivida não amadurece. Só passa.

Quando Cooper finalmente encontra a filha, ele ainda tem o rosto do homem que partiu. Ela está no fim da vida, cercada pela família que construiu enquanto ele tentava voltar.

O amor atravessou o tempo. Encontrou o quarto. Fez do relógio uma linguagem. Levou uma mensagem até ela quando já parecia impossível.

Mas não devolveu a infância.

Não devolveu os aniversários.

Não devolveu os anos em que cada um precisou aprender a viver sem o outro.

O reencontro consertou o vínculo. Não consertou o calendário.

Essa é uma das verdades mais difíceis sobre o amor: ele pode sobreviver ao tempo sem sair ileso dele. Pode continuar existindo, mesmo quando a vida que poderia ter sido vivida junto já passou. Pode nos levar de volta a alguém. Mas não pode nos devolver ao momento em que essa pessoa ainda estava esperando.

Isso não significa que a gente precise viver com medo de perder tudo. Nem que amar seja estar disponível o tempo inteiro. A vida adulta pede trabalho, distância, escolhas difíceis, cuidado com o futuro e, às vezes, ausências que não gostaríamos de oferecer.

Presença não é uma disponibilidade sem fim.

Mas é preciso lembrar que o relógio do outro também está andando.

Quintana escreveu “quando se vê” porque o tempo quase nunca avisa que está prestes a virar memória. Uma conversa comum pode ser a última daquele jeito. Uma criança pode pedir colo pela última vez sem saber. Um amigo pode contar uma história que nunca mais contará com as mesmas palavras. A pessoa ao nosso lado pode estar vivendo um instante que, pra nós, parece apenas mais um.

Talvez amar seja perceber um pouco antes que se veja.

Antes que o encontro vire lembrança.

Antes que a promessa vire arrependimento.

Antes que dois relógios, mesmo guardando o mesmo amor, já não tenham mais o mesmo futuro pela frente.

O tempo não volta. O amor também não faz os ponteiros andarem ao contrário.

Mas, antes que se veja, ainda existe um instante em que a promessa pode virar presença.

Ela não devolve o ontem. Mas muda aquilo que o amanhã vai lembrar.

Antes que se veja, ainda há hoje.

Um abraço,

Rodrigo