Carta da Semana / Carta #18
Ver sem enxergar
Enxergar alguém começa por admitir o que a gente não vê.
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Quando foi a última vez que você se sentiu enxergada(o)?
Não vista(o). Enxergada(o).
Na semana passada comentei com o Matheus, meu filho, que uma das coisas que mais sinto piorar com a idade é a visão. Ver bem. E, falando isso em voz alta, reparei numa delicadeza da nossa língua: a gente tem uma palavra pro que os olhos fazem e outra pro que acontece quando alguém nos alcança.
Ver é dos olhos.
Enxergar é de outra ordem. É perceber alguém como pessoa, como alma, como alguém importante.
Fui procurar de onde vem a palavra. E descobri que ninguém sabe ao certo. Os dicionários registram origem obscura, os estudiosos discutem há décadas. Entre as hipóteses, há a de que enxergar teria nascido do gesto de tirar o pano grosso que cobre uma coisa pra ver o que está embaixo.
Descobrir, no sentido mais literal.
Sabe a imagem de um iceberg? O que aparece acima da linha d’água é uma parte pequena. O resto, que é quase tudo, fica embaixo, no escuro, sustentando o que se vê.
Com as pessoas é igual. Eu vejo o que você me mostra: o que você fala, a roupa que escolheu, o jeito que chegou hoje. Embaixo ficam o medo que você não contou, a noite mal dormida, a conta, a saudade, o sonho que você nem sabe mais se ainda tem, os traumas, os valores, as experiências, a sua criação e as coisas que você ainda não nomeou. Ou que nem você sabe que estão lá.
Daí podemos achar que enxergar alguém seja decifrar essa parte. Entender. Saber do que o outro precisa. Mas conhecer tudo isso, por inteiro, não é possível.
Pensa no nosso próprio iceberg. A água quase nunca está parada. Vive mexida pelas situações da nossa vida. E, às vezes, está tão turva que mal conseguimos enxergar o nosso próprio fundo.
Talvez seja por isso que escrever faça tanto por mim. Quando escrevo, começo a organizar. Um sentimento encontra uma palavra. Um trauma encontra lugar ao lado de uma lembrança. Uma reação que parecia solta revela a história a que pertence. A escrita não inventa o que existe dentro de mim. Ela ajuda a limpar a água entre mim e aquilo que já estava lá.
Cada um tem um jeito de organizar e limpar a sua própria água.
O fato é que, se não temos certeza de como está nem o nosso próprio fundo, como ousar dizer que conhecemos o do outro?
Eu não preciso ver tudo. Nem vou conseguir. Eu só preciso saber que existe uma parte do outro que eu desconheço. E que, exatamente por desconhecer, eu não posso desconsiderar.
Quem trata o que vê como se fosse tudo não enxerga.
Consegue lembrar de alguém que te fez sentir enxergada(o)? Uma professora, um avô, um chefe, um amigo, um médico. Alguém que parou o que estava fazendo, olhou pra você e, por alguns minutos, te fez sentir que você existia por inteiro?
Repara no que aquele momento fez com seu corpo. O ombro desce. A gente para de se explicar. Para de se resumir, de se defender, de escolher a versão mais aceitável de si. Por alguns minutos, não é preciso provar nada pra merecer estar ali.
Ser enxergado é sentir que a sua existência foi importante pra alguém naquele momento.
Winnicott, psicanalista inglês, dizia que o primeiro espelho de um bebê é o rosto da mãe. E resumiu isso numa frase que serve pra vida inteira: quando olho, sou visto. Logo, existo.
Talvez seja por isso que dure tanto. A gente esquece presentes, esquece conselhos, esquece até favores. Mas não esquece quem nos enxergou.
Eu lembro da primeira vez em que senti isso num consultório. Vinha de meses indo de médico em médico, e até ali a única coisa que esperavam de mim, como paciente, era paciência. Um dia, um deles me deixou contar a história inteira. Perguntou da minha vida, pediu tempo pra estudar o meu caso. Naquela sala eu deixei de ser o próximo.
Nunca mais consegui chamar de excelência nada que fosse menos do que aquilo.
Mas também teve o dia em que você falou e ninguém ouviu. Teve o balcão em que olharam pro seu documento e não pra você. A sala de espera em que você era uma senha piscando num painel. A reunião em que a sua ideia só existiu quando outra pessoa repetiu. O jantar em que você contava o seu dia pra alguém que olhava o celular.
Você estava ali. Inteira(o), de carne e osso. E era como se não estivesse.
Há mais de cem anos, William James, um dos pais da psicologia, escreveu que não seria possível inventar castigo mais cruel do que soltar uma pessoa no mundo e fazer com que ela passasse absolutamente despercebida por todos. Que ninguém se virasse quando ela entrasse, ninguém respondesse quando falasse. Ele dizia que, perto disso, a dor física chegaria a ser alívio, porque pelo menos provaria que alguém nos achou dignos de atenção.
Pra mim, não se sentir enxergado é a maior dor do mundo. Em qualquer situação.
Otto Lara Resende contou na crônica “Vista Cansada”, em 1992, a história de um homem que passou trinta e dois anos pelo mesmo hall do prédio onde trabalhava. Todos os dias, o mesmo porteiro. Um dia o porteiro morreu, e o homem descobriu que não sabia dizer como era o rosto dele. Em trinta e dois anos, nunca o viu.
“De tanto ver, a gente banaliza o olhar”, ele escreveu. A gente “vê não-vendo”.
É confortável ler tudo isso do lado de quem não foi visto. O difícil é o outro lado.
Aconteceu comigo há mais de quinze anos. Estávamos em casa, no sofá da sala. Ouvi uma queixa, dita por uma das maiores parceiras que tive na vida. Uma das pessoas, até hoje, que mais admiro. Justa, correta, que nunca vi falar pra ferir alguém.
Ela disse que estava machucada porque eu não prestava atenção nela. Que eu não me preocupava de verdade com o dia dela, com as coisas dela.
Não lembro de mais nada daquele dia. Lembro da força do golpe. Da angústia de quem reconheceu a verdade antes de precisar se defender. Porque eu sempre quis ser uma pessoa boa. E ali descobri uma coisa que me assusta até hoje: eu podia, sim, ser uma pessoa boa (e era), mas mesmo assim não enxergar quem estava ao meu lado.
Muita gente não deixa de enxergar por maldade. Deixa porque está com pressa, cheio de si, em outro lugar.
Sêneca, há dois mil anos, tinha um nome pra isso: inércia inquieta. Falava de gente que vive correndo de um lado pro outro sem chegar a lugar nenhum, feito formiga que sobe até a ponta do galho e desce de mãos vazias. Muito movimento, ninguém dentro.
A pressa não nos deixa cegos. Ela só não dá ao olhar o tempo de que ele precisa pra virar encontro. E o pior: de tanto correr, não enxergamos nem a nós mesmos. Passamos pela própria vida como aquele homem passava pelo hall.
Mas aqui vem o que eu mais queria dizer.
Enxergar se aprende. Se ensina. E se exercita.
Ninguém nasce sabendo enxergar. Os olhos vêm prontos; o olhar, não. E, pra mim, uma das coisas mais importantes que uma casa e uma escola podem ensinar é a enxergar o outro. A desconfiar, com carinho, de que ele é muito mais do que a parte que aparece.
Pensa num menino de dez anos falando do treino de futebol, inconformado. Ele é atacante. O amigo é zagueiro.
— Mas era tão fácil ele me passar aquela bola!!
E o pai devolve a pergunta pelo outro lado do campo: será que o zagueiro não saiu dali pensando a mesma coisa? Que era tão fácil você voltar pra marcar?
Cada um olhou pro outro como se o outro fosse igual a si. Nenhum deles é. Têm características diferentes, necessidades diferentes, habilidades diferentes. É uma conversa sobre uma bola. Mas pode ter sido uma lição sobre enxergar gente.
Demonstrar a intenção de enxergar é permitir que a outra pessoa termine a frase dela. É ouvir sem transformar cada pausa numa chance de aconselhar. É devolver com nossas palavras o que entendemos. Pra dar ao outro a oportunidade de corrigir ou apenas de perceber que foi visto, e continuar inteiro na própria história.
E há um gesto ainda mais raro: lembrar depois.
Voltar ao assunto em outro dia. Perguntar pelo exame, pela conversa difícil, pelo medo que a pessoa compartilhou, pela situação que ainda não tinha desfecho. Quando fazemos isso com interesse genuíno, dizemos sem dizer: sua vida não desapareceu quando você saiu da minha frente. É aí que a pessoa descobre que continuou existindo em você depois que a conversa acabou.
Porque não basta enxergar. É preciso que o outro saiba que foi enxergado. O olhar que fica guardado dentro de mim não chega em ninguém. O cuidado precisa sair de quem sente e alcançar o outro.
Atender alguém de forma inteira não é só atender bem. É fazer o outro se sentir enxergado antes de tudo.
É aqui que o iceberg encontra INTEIREZA.
Pra uma relação ser inteira, seja ela qual for, é preciso, antes de tudo, que todos se enxerguem e se percebam enxergados.
E acontece uma coisa bonita no caminho. Enxergar não completa só quem é visto. Completa quem vê. A cada pessoa que eu deixo de reduzir, eu mesmo fico um pouco menos reduzido. Enxergar faz seres humanos melhores e mais completos.
Vale também pro outro lado do olhar.
Pensa nisso comigo: se mesmo eu, às vezes, não enxergo o fundo do meu iceberg, devo saber que ninguém, nunca, vai me ver por inteiro. Aprendi a não cobrar isso. O que me toca, quando acontece, é perceber em alguém a intenção verdadeira de me enxergar. É raro. E talvez por isso valha tanto.
Eu não escrevo do lugar de quem chegou. Na semana passada ouvi da minha mãe que ela não se sentiu enxergada por mim. Às vezes, ainda interrompo gente no meio da frase. Nem sempre enxergo plenamente. Mas luto conscientemente por isso, todos os dias.
E não escrevi esta carta pra você sair cobrando que te enxerguem. Escrevi pra tentar deixar uma semente.
Se cada um começar por si, aos poucos estamos todos enxergando melhor. Porque quem vê alguém enxergando aprende a enxergar. O menino de dez anos está aprendendo agora. Um dia ele vai voltar pra marcar.
Minha visão vai continuar piorando. Faz parte.
E talvez seus olhos também percam nitidez com os anos. Mas que o seu enxergar faça o caminho contrário. Porque enxergar pode ser o único jeito de ver que pode melhorar com a maturidade. Desde que a gente exercite.
Que a água nunca precise estar completamente limpa pra que você se lembre:
há sempre uma pessoa inteira do outro lado.
Um abraço,
Rodrigo
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