RKRodrigo Kluska

Carta da Semana / Carta #6

Saudade de quem eu fui • Carta #6

Tem uma comparação que ninguém percebe que faz: a gente com a gente mesmo, ,do passado. Esta carta é sobre parar de competir com um retrato que não envelhece.

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Existe uma comparação que quase ninguém percebe que faz.

Não é com o vizinho. Não é com o colega que subiu mais rápido, nem com a vida arrumada que rola na tela. Essa a gente até reconhece, e já aprendeu a desconfiar.

A comparação silenciosa é outra. É com a gente mesmo. Com uma versão de você que já existiu.

Você abre uma foto antiga e sente um aperto que não sabe nomear. Estava mais magro, dizem. Tinha mais cabelo, mais fôlego, mais sono tranquilo. Ria mais fácil. Topava mais. Parecia inteiro de um jeito que hoje custa. E sem perceber, você começa a medir o presente por aquele retrato. E perde. Perde todo dia, porque a régua é impossível: você está competindo com alguém que não envelhece.

Eu conheço esse aperto por dentro. Já me peguei com saudade de um Rodrigo de uns anos atrás, como se ele fosse a versão boa e eu, a cópia cansada. Demorei pra entender o truque cruel que a saudade prega: ela mostra o sorriso da foto, mas esconde o que veio depois dela.

Porque aquela foto não sabia.

Não sabia o que você ia atravessar. Não tinha cruzado a perda que você cruzou, não tinha segurado o que você segurou, não tinha aprendido, no susto, o que hoje você carrega sem nem pensar. Aquele você sorria mais solto porque ainda não tinha sido posto à prova. Leveza, às vezes, é só outro nome pra “ainda não doeu”.

E aqui está a virada que eu queria te entregar nesta carta: você não está atrasado em relação a ninguém, nem a você mesmo.

Comparar-se com quem você foi é exigir que a vida não tivesse te atravessado. É querer o sorriso antigo sem a história que veio junto. Mas a vida atravessa todo mundo. E quem ela atravessa não volta igual: volta maior. Volta com raiz, com cicatriz, com um peso que, com o tempo, virou valor.

Quem você é hoje não é uma versão piorada daquela foto. É uma versão mais funda. Tem chão que a outra não tinha. Tem uma calma que a pressa de antes não conhecia. Tem histórias que não cabem num retrato sorridente e é, justamente nelas, que mora a sua densidade.

Foi desse lugar que nasceu este poema:

QUEM EU JÁ FUI

Tem alguém com quem você compete
de quem nunca consegue ganhar:
é você de um tempo atrás,
que ficou parado a se cobrar.

Vive numa foto antiga,
sorri de um tempo que voou.
Tinha fôlego de sobra,
tinha tudo que sonhou.

E você fica medindo
o presente pelo que passou.
Olha pra trás com saudade
de um você que já brilhou...

Mas tem uma verdade
que a foto não guardou,
que a saudade não conta,
que ninguém te explicou:

aquele você sorria
porque ainda não sabia.
Não tinha cruzado o escuro,
não havia trovões no seu dia.

Então escuta, devagar:
você não está atrasado.
Não perdeu pra quem já foi.
Você foi atravessado.

E quem a vida atravessa
não volta igual, volta maior.
Com raiz, com cicatriz,
com um peso que virou valor.

Para de competir
com um retrato que parou.
A vida seguiu com você...
e olha só quem chegou:

quem ficou, quem resistiu,
quem caiu... e floresceu!
Esse você não é menos.
Esse você é seu.

A foto não envelhece. Você sim. E envelhecer, aqui, não é decadência. É a prova de que você esteve presente, de que atravessou, de que ficou. O retrato congelou num instante; você seguiu vivendo todos os outros.

Então, da próxima vez que aquela saudade vier — e ela vem — experimente não tratá-la como acusação. Trate como uma despedida carinhosa. Aquele você te trouxe até aqui. Cumpriu o papel dele. Agradece, e segue.

Porque a pessoa que chegou depois de tudo não é menos do que a da foto.

Ela é mais sua.

Até a próxima,
Rodrigo