Carta da Semana / Carta #7
O plantio que ninguém viu
A história do Casimiro que a manchete dos 2 bilhões não contou. E a conquista sua que ninguém comemorou
Comece a leituraO maior erro que a gente comete é julgar a colheita de alguém sem nunca ter visto o plantio. Foi exatamente isso que aconteceu nesta semana, quando uma manchete resumiu anos numa frase: Casimiro construiu 2 bilhões em patrocínio “indo ao trabalho ao meio-dia”. Eu quero te contar o que a manchete não contou. E, no fim, quero falar de você.
A história começa muito antes. O Cazé foi menino de redação, apresentou programa de TV que pouca gente lembra. Em 2018, abriu uma live na Twitch pra falar de futebol pra meia dúzia de pessoas. Em 2022, veio o embrião da TV dele: os direitos de dezesseis jogos do Campeonato Carioca. Dezesseis jogos. Um estadual.
Quatro anos depois, nesta Copa, a CazéTV realizou o sonho dele em tamanho de país: foi a única TV a transmitir todos os 104 jogos, de graça, pra qualquer brasileiro com um celular na mão. Nem a Globo fez isso. O menino da live pra meia dúzia virou a maior transmissão do Brasil.
Colocada assim, em sequência, a história é óbvia: ninguém constrói isso indo trabalhar ao meio-dia. Constrói chegando cedo durante anos em lugares que não davam manchete. O meio-dia de hoje é um direito que o plantio comprou. Mas a manchete não tem espaço pra sequência. Ela fotografa o dia da colheita e vai embora. E aí o julgamento fica fácil: foi sorte, foi atalho, foi timing. Não se olha o esforço, a inteligência, o senso de oportunidade. Julga-se até o jeito de a pessoa falar, sem ver que muitas vezes foi exatamente por isso que ela deu certo.
Eu passei vinte e cinco anos da minha vida profissional dentro do RH, vendo carreiras de perto. E te digo: esse julgamento não é um problema do Casimiro. Ele é feito de nós todos os dias, em escala menor e sem manchete. O colega que “deu sorte” na promoção (e engoliu anos de trabalho que você não viu). A empresa do outro que “cresceu do nada”. E o contrário também, que dói mais: o teu esforço de anos lido como facilidade, a tua conquista recebida com um “ah, que bom” distraído, o teu trabalho sustentando tudo em silêncio enquanto ninguém te enxerga nele.
A ferida de não ser visto tem um risco escondido: a gente passa a esperar que o reconhecimento venha de fora pra só então se alegrar. E se ele não vem, a conquista fica lá, parada, sem festa, como se não tivesse acontecido. Quantas vitórias suas passaram em branco porque ninguém aplaudiu? A gente costuma admirar resultados. Mas caráter se forma no tempo em que ninguém está olhando.
Então esta Carta termina com um convite de duas pontas. Primeira: quando você vir a colheita de alguém, honra o plantio que você não viu. É um jeito silencioso de fazer o mundo mais justo. Segunda, e mais importante: quando a tua conquista chegar, mesmo pequena, comemora. Conta pra alguém. Abre alguma coisa. Marca o dia. Não espere autorização para comemorar. Não existe “do dia pra noite”. Sempre existe um plantio que ninguém viu. O do Cazé teve transmissão nacional. O seu pode pelo menos ter a sua própria festa.
Porque aplauso nunca fez uma árvore crescer. Foi o plantio.
E fica uma pergunta pra você me responder, se quiser (basta responder este e-mail, eu leio todos): qual conquista sua merecia ter sido mais comemorada?
Um abraço,
R. Kluska