Carta da Semana / Carta #8
A primeira dezena
Ninguém te conta que dez anos de um filho cabem num piscar. Esta carta é sobre o medo de perder a infância e a verdade que esse medo esconde.
Comece a leituraTem um medo que quase todo pai e toda mãe conhece, mas quase ninguém confessa em voz alta.
Não é o medo de que algo aconteça com o filho. Esse a gente carrega e entende.
O outro é mais silencioso, mais difícil de explicar: é o medo de estar perdendo a infância dele no exato instante em que ela acontece.
De piscar e perceber que o colo já virou passo firme.
De guardar um sapatinho pequeno numa gaveta e sentir um aperto que não cabe em palavra.
Estes dias, eu vi uma primeira dezena se fechar.
O Matheus fez dez anos.
E dez anos, quando são de um filho, não passam como os outros. Passam num piscar, mas deixam a sensação de que a gente deveria ter olhado com mais atenção.
Como se, entre um aniversário e o próximo, tivesse escapado uma quantidade de vida que não volta.
É aí que mora a armadilha.
A gente ouve a vida inteira que precisa “aproveitar cada segundo”. E transforma isso numa cobrança impossível.
Se cada segundo importa tanto, cada segundo distraído parece uma falta.
O trabalho que atrapalhou.
O dia em que o cansaço venceu.
A brincadeira adiada.
A foto que a gente não tirou.
A pressão por aproveitar tudo acaba roubando o próprio aproveitar.
E a infância, que deveria ser vivida, começa a ser velada como se a saudade precisasse chegar antes da hora.
Obrigado por ler A Carta da Semana! Inscreva-se para receber novos textos toda semana e para apoiar meu trabalho.
De tanto observar gente, e de tanto me observar, fui aprendendo uma coisa que mudou meu jeito de olhar para isso:
presença não é aproveitar cada segundo.
Ninguém aproveita cada segundo de nada.
Presença é morar dentro das fases enquanto elas duram.
É estar no comum, no repetido, no que parecia banal e só depois se revela sagrado.
É ouvir a mesma história mais uma vez. É levar para a escola. É perguntar como foi o dia e esperar a resposta inteira. É conhecer os medos, os amigos, os desenhos, os jogos e as pequenas obsessões que mudam a cada idade.
E aqui está o que o medo esconde:
quem morou dentro das fases não perdeu nenhum desses anos.
Os anos não foram embora.
Eles ficaram transformados dentro da criança e dentro de quem a criou.
Foi dessa virada que nasceu este poema:
A PRIMEIRA DEZENA
Ninguém te conta, quando ele nasce,
que dez anos cabem num piscar.
Que a primeira dezena
passa antes de você notar.
Ontem era colo, era mão pequena
sumindo dentro da minha mão.
Hoje é passo firme, pergunta grande,
é gente crescendo no meu chão.
E dá um aperto, eu confesso:
de querer segurar o ponteiro,
de guardar cada fase num vidro,
de não perder o menino inteiro…
Mas tem uma coisa que o medo esconde,
que o tempo não veio roubar:
eu não perdi nenhum desses anos.
Morei dentro de cada lugar.
Cada fase que se despede
é uma fase que ajudei a criar.
Ele não cresce para longe de mim,
cresce porque teve onde plantar.
E o que eu fui, nesses dez anos,
não ficou para trás, não se apagou:
virou raiz plantada nele,
virou chão de onde ele voou.
Então segura, coração:
a dezena não foi embora.
Ela virou tudo o que ele é
e um tanto do que eu sou agora.
Os dez anos do Matheus
são a prova de que deu certo.
Meu menino segue crescendo,
e eu sigo, nele, por perto.
— R. Kluska
Repare no que a despedida de cada fase realmente significa.
A gente sente saudade do bebê que já não engatinha, da criança que já não pede colo como antes, da voz pequena que começou a mudar.
E lê tudo isso como perda.
Mas cada fase que termina só termina porque cumpriu o que tinha para cumprir.
O filho passou de fase porque teve chão para pisar.
A saudade que você sente não é prova de que falhou.
É prova de que houve cuidado. Houve presença. Houve raiz.
Ninguém sente saudade do que não amou.
E existe uma parte que quase nunca dizem ao pai e à mãe:
você não fica para trás.
Você não é o passado da história do seu filho.
O que você foi durante esses anos não desaparece quando uma fase termina. Vira repertório dentro dele. Vira o jeito como ele olha para o mundo. Vira uma voz interna que vai acompanhá-lo na escola, na vida adulta e nas relações que ele ainda nem imagina viver.
Você vira chão de onde ele voa.
E chão nenhum fica para trás.
Chão é de onde a gente parte. É também o lugar para o qual, quando a vida aperta, a memória sabe voltar.
Então, se você anda sentindo esse aperto, deixa eu lhe devolver esta carta virada do avesso:
você não está perdendo a infância do seu filho.
Você está construindo, em silêncio, a base inteira de uma pessoa.
Cada fase que passa não é um adeus.
É a prova de que deu certo.
E o menino, a menina, segue crescendo.
E você segue, dentro dele, por perto.
Com carinho, da minha primeira dezena para a sua,
Rodrigo