Carta da Semana / Carta #14
Tem gente reparando
Reparar no bem é só o primeiro passo. O segundo é dizê-lo a tempo.
Comece a leituraDomingo, Dia dos Pais, fui com o meu filho assistir a Homem-Aranha: Um Novo Dia no Shopping Eldorado, em São Paulo.
Na sala, sentei ao lado de uma mulher que eu nunca tinha visto.
Ela cumprimentou quando nós chegamos. Cedeu o apoio de braço pra mim e depois cedeu o outro para a pessoa do lado oposto, também desconhecida. Assistiu ao filme encolhida na própria cadeira. Riu bastante nas partes engraçadas. Emocionou-se nas outras. Estava sozinha e parecia aproveitar cada minuto.
O que me tocou foi a delicadeza dela com pessoas que nunca tinha visto.
Passei boa parte do filme pensando que, no final, deveria dizer alguma coisa. Nada extraordinário. Apenas:
“Foi muito bom dividir a fileira com você. Você foi muito gentil.”
Não disse.
Faltou coragem.
Ela foi embora sem saber que alguém tinha reparado.
Talvez eu tenha pensado tanto nela porque já vinha carregando outra cena daquela semana.
Você provavelmente viu um vídeo que viralizou.
Uma família russa, no Brasil havia menos de um ano, caminhava pela orla de Santos quando ouviu música ao vivo. Era o aniversário de pessoas que nunca tinham visto.
Os donos da festa chamaram a família para perto. Ofereceram petiscos, docinhos, refrigerante e um pedaço de bolo para levar para casa.
A menina se chama Safina. Tem oito anos.
Ela e a mãe estavam gravando um vídeo para contar ao pai o que tinha acontecido. Depois, decidiram publicá-lo.
No vídeo, Safina diz:
“Os brasileiros simplesmente deram um pedaço de bolo para nós, que éramos completos desconhecidos. Eu não entendo de jeito nenhum.”
Depois, com a franqueza que só as crianças têm, admite que provavelmente não faria o mesmo se desconhecidos aparecessem em seu aniversário.
Muita gente achou graça.
Eu fiquei com um nó.
Não acho que o vídeo prove que brasileiros sejam bons e russos, frios. Isso seria simples demais e injusto.
Para Safina, aquele gesto era raro o bastante para ser incompreensível. Para nós, era familiar o bastante para que o espanto dela também nos espantasse.
Talvez a gente ainda se reconheça naquele pedaço de bolo.
Talvez tenhamos nos emocionado porque, por alguns segundos, o vídeo contradisse uma história que andamos contando sobre nós mesmos.
A história de que ninguém mais presta.
De que não dá para confiar em ninguém.
De que o mundo ficou ruim.
A gente repete isso no almoço, no carro, na frente dos filhos, como quem comenta o tempo. Só que essa frase cobra um preço escondido.
Quem acredita que ninguém presta começa a desconfiar antes de conhecer. Para de oferecer o bolo primeiro. Para de cumprimentar primeiro. Para de abrir espaço. Para de dizer o bem que viu.
E a desconfiança vira herança.
Talvez essa frase tenha pesado ainda mais num Dia dos Pais, com meu filho ao meu lado.
Os nossos filhos aprendem a régua que usamos diante deles. Aprendem se o desconhecido é alguém a quem se oferece um prato ou alguém de quem se protege o prato.
Há uma história antiga escondida nas palavras.
Hóspede e hostil são parentes distantes. As duas palavras remontam a uma raiz ligada ao estrangeiro. No latim, hospes podia nomear tanto quem recebia como quem era recebido. Hostis, que antes também designava alguém de fora, acabou tomando o sentido de inimigo.
A língua guardou a bifurcação que cada encontro refaz.
Todo desconhecido chega como uma pergunta.
Será recebido como hóspede ou tratado como ameaça?
A festa de Santos respondeu sem discurso e sem plateia.
Ofereceu o bolo primeiro.
E é aqui que volto pra mulher do cinema.
A bondade não mora apenas nos gestos que viralizam. Ela está no cumprimento de quem se senta ao lado. No espaço cedido. Na porta segurada. No prato a mais. Na carona. No “fica, come alguma coisa”.
São gestos pequenos demais para virar notícia e importantes demais para passar despercebidos.
A gente não perdeu a bondade. A gente perdeu o hábito de reparar nela.
A bondade não precisa de testemunhas para existir.
O nosso cinismo é que precisa delas para ser desmentido.
Eu testemunhei a gentileza daquela mulher. Só não tive coragem de testemunhá-la em voz alta.
Reparei, mas não disse.
Talvez ela nunca leia esta carta. Talvez, por algum desses acasos que a internet fabrica, esta carta chegue até ela.
Se chegar, este é o elogio que ficou no meu bolso:
Você foi uma companhia de sala extraordinariamente gentil. Eu reparei. Desculpa não ter dito enquanto você ainda estava ao alcance da minha voz.
Estou trabalhando pra ter essa coragem da próxima vez.
Porque reparar no bem é só o primeiro passo.
O segundo é dizê-lo a tempo.
É disso que falo quando falo de inteireza.
Inteireza é fazer o bem sem testemunhas. E ter coragem de testemunhar o bem que encontramos nos outros.
Então, esta semana, ofereça o bolo primeiro.
E, quando alguém for gentil com você, não admire em silêncio.
Diga.
Que nenhum elogio seu precise virar uma carta sem endereço.
Um abraço,
Rodrigo
P.S.: Quem foi a última pessoa que recebeu você sem que você precisasse merecer? Me responde este e-mail. Eu leio todas as respostas.
O vídeo que inspirou esta carta está aqui.