Carta da Semana / Carta #13
Quem merece a nossa humanidade
Uma fronteira pode decidir onde alguém pode morar. Ela nunca deveria decidir quanto vale uma vida.
Comece a leituraExiste uma fronteira que me preocupa mais do que a que separa o Marrocos da Espanha. Ela fica dentro da cabeça da gente.
É a linha que faz eu saber o nome do porteiro do meu prédio e nunca perguntar como foi o dia dele. A linha que faz a gente atravessar a rua sem olhar para quem está sentado nela.
A linha que aparece quando alguém é de outro país, de outro partido, de outra religião, de outro time, de outra cor…
Na semana passada eu descobri que essa mesma linha também passava por Ceuta.
Até então, Ceuta era apenas um nome que eu mal conhecia. Uma cidade espanhola no norte da África. Depois vieram as imagens. Dezenas de milhares de pessoas tentando atravessar a fronteira, muitas entrando no mar, algumas nadando quilômetros, outras escalando pedras, cercas e barreiras. Mais de setenta corpos recuperados. Afogados. Esmagados contra o quebra-mar. A maior parte das pessoas voltou ao Marrocos no mesmo dia.
Li tudo isso tomando café. E segui com o meu dia.
Mas alguma coisa continuou me incomodando. Não foi a tragédia. Foi a conversa.
A conversa
Durante dias discutimos quem tinha razão. Se a culpa era do Marrocos, se era da Espanha, se era da Europa. Falamos de fronteiras, de imigração, de soberania, de segurança, de economia, de quem pagaria a conta.
Quase ninguém parecia discutir gente.
E uma frase apareceu muitas vezes: “são todos homens jovens”.
Primeiro, ela nem era verdadeira. Havia mulheres. Havia famílias. Havia milhares de crianças.
Mas existe um problema ainda maior. A frase olha para quem conseguiu chegar e conclui que aquele grupo representa todos os que tentaram. Não representa. Quem chegou vivo era quem conseguiu suportar horas dentro do mar., sendo pisado, amssado pela multidao. Quem suportou as correntes contrarias do Estreito de Gibraltar. Aquilo não era um retrato de quem tentou. Era um retrato de quem sobreviveu.
O mecanismo
E, de repente, eu percebi que já tinha visto esse mecanismo muitas vezes. Só nunca tinha reparado.
Ele aparece quando chamamos alguém de “morador de rua” antes de enxergarmos uma pessoa. Quando dizemos “o imigrante”, “o de esquerda”, “o de direita”, “o funcionário”, “o rico”, “o pobre”, “o estrangeiro”.
A categoria chega antes. A pessoa desaparece depois.
E aqui eu topei com uma coisa que me deixou sem chão, porque estava na minha frente desde o ensino fundamental.
A gramática já tinha resolvido isso muito antes de nós. Ela separa o nome próprio do nome comum. Próprio vem do latim proprius: aquilo que pertence a alguém, e a mais ninguém. Comum vem de communis: aquilo que é dividido por muitos.
São duas categorias inventadas justamente para distinguir o que é de uma pessoa só do que é de todo mundo. E é exatamente essa a troca que a gente faz: para de dizer Fátima e passa a dizer os migrantes.
Desumanizar, no fim, tem uma definição gramatical. É trocar um nome próprio por um nome comum.
O mais desconfortável é que essa troca não exige maldade nenhuma. Exige pressa.
E, se serve de esperança, a língua está se corrigindo sozinha. A forma recomendada hoje não é mais “morador de rua”. É pessoa em situação de rua. Repare na ordem. A palavra pessoa vem primeiro, e a situação vem depois, como circunstância, não como identidade. Alguém percebeu que a ordem das palavras decide o que a gente enxerga.
Por que a gente faz isso
Em 1971, o psicólogo Henri Tajfel demonstrou como isso acontece. Ele dividiu um grupo de meninos em dois. O critério era aleatório: qual dos dois pintores eles preferiam, Klee ou Kandinsky. Pintores que eles praticamente nem conheciam.
Foi suficiente. Poucos minutos depois, cada grupo já favorecia os seus.
Não existia história. Não existia conflito. Não existia motivo. Só uma etiqueta.
Bastaram dois segundos para nascer um “nós”.
Talvez o problema nunca tenha sido o mar. Talvez o problema sempre tenha sido a facilidade com que construímos um “eles”.
Foi então que lembrei de Peter Singer. Ele propõe uma cena simples. Você passa por um lago raso e uma criança está se afogando. Você entra. Mesmo estragando o sapato, mesmo perdendo a reunião. Quase ninguém discorda dessa decisão.
Então ele faz a pergunta difícil: o que muda quando essa criança está longe?
Talvez a obrigação moral não desapareça. Talvez ela só pare de doer.
Na semana passada, o lago era o mar.
O que eu não concedo
Precisamos ser justos. Ceuta não tinha condições de receber dezenas de milhares de pessoas. Nenhuma cidade daquele tamanho teria. Talvez milhares realmente precisassem voltar. Eu entendo e aceito tudo isso.
O que eu não aceito é outra coisa: que eficiência seja desculpa para abandonar a humanidade.
Porque existe uma diferença enorme entre devolver alguém e deixar de cuidar dele. Você pode aplicar uma lei sem humilhar. Pode controlar uma fronteira sem tratar uma pessoa como carga. Pode decidir que alguém não ficará no seu país sem esquecer que ele continua sendo alguém.
Essa talvez seja a discussão que quase nunca fazemos. Não “devolver ou não devolver”, mas como uma sociedade íntegra devolve alguém.
Com água.
Com comida.
Com atendimento médico.
Com informação.
Com identificação.
Com respeito.
Porque uma fronteira pode decidir onde alguém pode morar. Ela nunca deveria decidir quanto vale uma vida.
Isto nunca foi sobre Ceuta
No fim das contas, percebi que esta carta nunca foi sobre Ceuta. Foi sobre mim.
Eu não consigo cuidar de todo mundo. Ninguém consegue. Mas consigo perceber quando a minha régua encolhe. Ela encolhe quando a pessoa é de outro partido, de outro país, de outro sotaque, de outro andar do prédio, torce pra outro time.
Inteireza, para mim, talvez seja isso. Não aumentar o coração. Parar de encolher a régua.
Na próxima vez que aparecer uma notícia como essa, eu provavelmente continuarei sem saber qual deveria ser a política migratória. Mas existe uma pergunta que eu não quero deixar de fazer.
Antes de perguntar quem tem razão, quem vai pagar, de quem é a culpa.
Quero perguntar: o que está acontecendo com as pessoas?
Porque a desumanização nunca começa quando alguém morre. Ela começa muito antes. Começa quando alguém deixa de ser visto como alguém e passa a ser apenas “eles”.
Um abraço,
R. Kluska