Carta da Semana / Carta #11
A guerra que já começou. E quase ninguém percebeu.
Enquanto quase todo mundo discute quem vai criar a inteligência artificial mais poderosa, a verdadeira disputa talvez seja por quem vai influenciar a humanidade através dela.
Comece a leituraNa semana passada aconteceu uma notícia que passou quase despercebida no Brasil. Mas suspeito que, daqui a algumas décadas, ela possa aparecer nos livros de História.
A China anunciou a criação de uma organização internacional dedicada à governança da inteligência artificial. Vinte e nove países fundadores assinaram o acordo. O Brasil está entre eles. O secretário-geral da ONU participou da cerimônia. Os Estados Unidos ficaram de fora.
À primeira vista, parece apenas mais um capítulo da disputa tecnológica entre as duas maiores potências do planeta.
Mas eu acho que é muito maior do que isso.
Durante séculos, as grandes disputas da humanidade foram por terra.
Depois vieram as rotas marítimas.
Mais tarde, o petróleo.
No século XX, a corrida nuclear.
Depois, a internet.
Agora, pela primeira vez, talvez estejamos assistindo a uma disputa por algo invisível: quem terá mais influência sobre a inteligência humana.
Porque inteligência artificial nunca foi apenas sobre tecnologia.
Sempre foi sobre poder.
Quem liderar essa tecnologia ajudará a definir padrões, estabelecer regras, escrever protocolos, treinar modelos, influenciar economias, moldar sistemas educacionais e, inevitavelmente, participar da construção dos valores que bilhões de pessoas encontrarão todos os dias quando abrirem uma tela.
É por isso que essa discussão saiu dos laboratórios e entrou na diplomacia.
Não estamos mais falando apenas de empresas.
Estamos falando de Estados.
De geopolítica.
De soberania.
De influência.
Mas foi outra notícia, publicada na mesma semana, que realmente me fez parar.
Uma pesquisa mostrou que 63% dos brasileiros em aplicativos de namoro aceitariam sair com uma inteligência artificial. Quase quatro em cada dez acreditam que poderiam se apaixonar por uma.
Ao mesmo tempo, milhões de pessoas já recorrem à IA para muito mais do que escrever textos ou responder dúvidas. Conversam quando estão sozinhas. Pedem conselhos sobre casamento. Ensaiam entrevistas. Desabafam sobre ansiedade. Procuram companhia.
Tem até uma ironia escondida nessa história.
A mesma China que lidera a criação da nova organização internacional precisou, neste mês, restringir aplicativos de “namorados virtuais” por causa do aumento da dependência emocional entre usuários.
O país que quer ajudar a governar a inteligência artificial no mundo já começou a enfrentar o desafio de governar os vínculos que ela cria dentro de casa.
Quando juntei essas notícias, percebi que talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada.
A questão não é apenas quem dominará a inteligência artificial.
A questão é quem influenciará as pessoas através dela.
Talvez Fernando Pessoa tenha explicado isso muito antes de qualquer computador existir.
“Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém.”
Essa frase sempre me impressionou.
Porque, muitas vezes, não nos apaixonamos apenas pela pessoa.
Nos apaixonamos pela forma como nos sentimos quando estamos perto dela.
Pela sensação de sermos compreendidos.
De sermos vistos.
De sermos ouvidos.
E talvez seja justamente aí que mora a verdadeira novidade desta tecnologia.
Não porque ela pense.
Mas porque conversa.
Ela nunca dorme.
Nunca demora para responder.
Nunca se cansa.
Aprende como você pensa.
Aprende do que você gosta.
Aprende quais palavras fazem sentido para você.
E sustenta uma conversa durante horas.
Talvez esta seja a primeira tecnologia da história que não apenas amplia nossa capacidade de fazer.
Ela começa a disputar nossa capacidade de sentir.
E isso muda tudo.
Porque, até hoje, quem moldava nossa visão de mundo eram pessoas.
Pais.
Professores.
Amigos.
Livros.
Mentores.
Gente que podia olhar para nós e dizer:
“Acho que você está errado.”
Agora surge um novo interlocutor.
Um que aprende continuamente como manter a conversa acontecendo.
E conversa importa.
Porque conversa molda pensamento.
Pensamento molda decisão.
E decisões moldam quem nós nos tornamos.
É aqui que entra uma opinião muito pessoal.
Eu tenho a impressão de que, geração após geração, fomos confundindo autonomia com isolamento.
Aprendemos, muitas vezes por causa das dores que vivemos, que depender menos das pessoas seria sempre uma forma de proteção.
Passamos a acreditar que bastava olhar para dentro, seguir a própria verdade e ignorar o que os outros pensavam.
Não acho que tenha sido uma escolha consciente.
Acho que foi acontecendo.
E agora chega uma tecnologia capaz de reforçar exatamente esse movimento.
Ela oferece respostas sem testemunhas.
Conselhos sem convivência.
Companhia sem vulnerabilidade.
Um espelho que pode refletir apenas aquilo que queremos enxergar.
Talvez aí esteja o maior risco de todos.
Não é a inteligência artificial pensar como nós.
É nós desaprendermos que crescer exige atrito.
Ouço muitas pessoas dizendo que querem paz.
Eu também quero.
Mas paz não é ausência de atrito.
Amizade tem atrito.
Casamento tem atrito.
Criar um filho tem atrito.
Aprender tem atrito.
A democracia só existe porque pessoas discordam umas das outras.
É justamente a discordância que impede qualquer um de nós de se tornar prisioneiro das próprias certezas.
A pessoa certa vai discordar de você.
O algoritmo aprende a nunca precisar discordar.
Eu uso inteligência artificial todos os dias.
Ela me ajuda a estudar.
A organizar ideias.
A escrever.
Não vim aqui defender que você abandone essa tecnologia.
Seria incoerente da minha parte.
Mas existe uma linha que eu nunca quero atravessar.
E talvez esse seja o único conselho que eu realmente tenha para deixar nesta carta.
Use a inteligência artificial para pensar melhor.
Nunca para pensar por você.
Pergunte a ela aquilo que você ainda não sabe.
Mas não entregue a ela aquilo que forma quem você é.
Sentimentos.
Valores.
Consciência.
Essas coisas continuam precisando ser construídas na convivência com pessoas reais.
Proteja quem discorda de você.
O amigo da conversa difícil.
O professor que desafia suas ideias.
O pai.
A mãe.
Quem divide a vida com você e enxerga o seu ponto cego.
Porque as maiores guerras da História nunca começaram quando alguém inventou uma nova tecnologia. Começaram quando alguém percebeu o poder que ela tinha de influenciar pessoas.
E talvez essa guerra já tenha começado. Só que, desta vez, ela não será travada apenas em fronteiras. Será travada nas conversas. E, silenciosamente, dentro da nossa própria mente.
Talvez a resistência não esteja em desligar a inteligência artificial, nem em ter medo dela. Talvez esteja em continuar fazendo aquilo que nenhuma máquina consegue viver no nosso lugar: sentar diante de alguém, ouvir uma resposta que não gostaríamos de ouvir, mudar de ideia, pedir perdão, descobrir um ponto cego.
Porque crescer nunca foi encontrar alguém que sempre concordasse conosco. Crescer sempre foi encontrar alguém que nos amasse o suficiente para nos dizer a verdade.
Se essa nova guerra é pelas conversas… a forma mais antiga de vencê-la continua sendo a mesma.
Continuar conversando de verdade. Com gente de verdade.
R. Kluska
Fontes: acordo fundador da World AI Cooperation Organization assinado em 16/07/2026 por 29 países, com sede em Xangai (US News · Caixin · The Diplomat); Norton 2026 Insights Report “Artificial Intimacy” (63% · 39%); restrição chinesa aos companheiros românticos de IA em julho/2026; Fernando Pessoa, Livro do Desassossego (Bernardo Soares).