Carta da Semana / Carta #10
A saudade que ninguém sabe explicar
A saudade não é de 2016. É da última versão de nós que ainda não confundia viver com aparecer.
Comece a leituraExiste uma saudade estranha que não aponta para um lugar. Aponta para um jeito de existir.
Talvez você tenha esbarrado nela. A internet inteira parece ter decidido que “2026 é o novo 2016”. Voltaram as fotos tremidas, a orelha de cachorro do Snapchat, as cores saturadas, as legendas sem estratégia nenhuma. À primeira vista, parece só nostalgia. Mais uma moda das redes.
Mas acho que ela está dizendo outra coisa.
E não sou só eu.
A Forbes analisou o fenômeno lá fora. No Brasil, uma reportagem de O Globo ouviu o sociólogo Marco Ruediger, da FGV, e o psicólogo Lucas Franco Freire, autor de Exaustos. O diagnóstico deles é menos sobre uma década e mais sobre um estado de espírito: talvez as pessoas não sintam falta de 2016. Sintam falta da última época em que a internet ainda orbitava a vida, em vez de a vida orbitar a internet.
Porque alguma coisa mudou no caminho.
Em 2016, uma foto ruim ainda podia ser uma boa lembrança.
Hoje, até um café parece precisar de direção de arte.
A viagem, o treino, o jantar, o descanso. Tudo parece nascer já carregando uma pergunta silenciosa:
“Isso vai render?”
É curioso como o cansaço moderno raramente vem do excesso de fazer.
Muitas vezes ele vem do excesso de aparecer.
Não basta viver uma experiência. É preciso administrá-la. Fotografá-la. Editá-la. Encontrar a legenda. Escolher o melhor ângulo. Antecipar a reação dos outros antes mesmo de sentir a própria.
Sem perceber, começamos a viver metade do momento olhando para ele de fora.
Como se fôssemos, ao mesmo tempo, protagonistas e assessores de imprensa da nossa própria vida.
Queria te propor um teste simples.
Abre a galeria do celular e vai voltando alguns meses.
Quantas fotos você fez para lembrar?
E quantas fez para mostrar?
Não é uma pergunta para produzir culpa.
Ninguém nos ensinou isso numa aula.
Aconteceu devagar.
Todo mundo parecia viver uma vida extraordinária. Então começamos a aprender, quase sem notar, que viver talvez não bastasse. Era preciso parecer viver.
No fim, viramos plateia de pessoas que também estavam representando.
Existe uma diferença enorme entre memória e arquivo.
O arquivo mora no celular. A memória mora em você.
O arquivo guarda pixels. A memória guarda cheiro. Guarda temperatura. Guarda o jeito que alguém riu, uma frase que ninguém mais ouviu.
O arquivo registra que você esteve ali. A memória registra que você foi transformado ali.
Tenho medo de que estejamos acumulando uma enquanto perdemos a outra. Que a galeria esteja cheia e a lembrança, vazia. Que a gente se recorde da publicação, mas não consiga mais lembrar do vento daquele dia.
Talvez seja por isso que tanta gente olha para 2016 com ternura. Não porque aquele ano fosse melhor.
Quem viveu sabe que não era.
Mas porque talvez tenha sido uma das últimas épocas em que ainda existia um pedaço da vida que não precisava ser traduzido em conteúdo.
A saudade não é de um calendário. É de uma liberdade.
Da liberdade de viver uma coisa sem imediatamente transformá-la numa vitrine.
Então eu queria te propor um pequeno experimento.
Nesta semana, escolhe um momento bonito.
Pode ser um café sem pressa, uma conversa longa, um abraço, uma brincadeira com seu filho.
E faz três coisas.
Deixa o celular longe.
Não ensaia como você contaria aquilo depois.
E, quando der vontade de registrar, pergunta a si mesmo:
este momento precisa ser lembrado… ou mostrado?
Se a resposta for “lembrado”, deixa que ele exista inteiro.
Só entre você e quem estava ali.
Talvez seja exatamente isso que tanta gente esteja procurando quando diz sentir saudade de 2016.
Não de um ano. Mas de um lugar onde existir ainda era suficiente.
E, antes de terminar, uma última ideia.
Se você já tem alguém diante de quem consegue ser exatamente quem é, sem filtro, sem performance, sem precisar parecer interessante o tempo inteiro, cuide dessa pessoa.
Ela vale mais do que qualquer audiência.
Porque, no fim, as melhores partes da vida quase nunca são as mais fotografadas.
São as que continuam morando dentro da gente muito depois de a câmera ter sido esquecida.
Com afeto,
R. Kluska